quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Exodus - Persona Non Grata (2021)

 

Já faz algumas semanas, algo próximo de um mês, que eu tenho ouvido bastante os álbuns clássicos da banda, desde o início com a obra-prima que é o debute, até o excelente, e um dos meus preferidos, “Impact is Imminent” (1990). Digo isso não para tentar embasar minha opinião no fato de que escuto muito a banda. Ouvir muito ou pouco uma banda não é, necessariamente, critério para dizer a qualidade de seus discos. Mas preferi, no entanto, começar desse jeito pelo seguinte, Steve “Zetro” Souza disse, muito recentemente numa entrevista, que o novo disco, “Persona Non Grata” (2021), é o melhor disco deles já feito até então. É uma afirmação um tanto quanto... Polêmica, talvez? Se parar para olhar principalmente para esses álbuns de início de carreira – e tantos outros que vieram depois –, fica difícil de acreditar em tal afirmação. Então, foi a partir daí que resolvi pausar minhas novas incursões pelos discos clássicos para, enfim, ouvir o tão bem falado lançamento.

O álbum abre com a faixa homônima e já nos mostra que eles não estão aqui pra brincadeira. A faixa é um soco no ouvido do começo ao fim, mantendo um ritmo agressivo de fazer qualquer um ficar de boca aberta! “Persona Non Grata” significa alguém que não é bem-vindo em um determinado local, e combina muito bem com a proposta do álbum, que é expor e criticar as sujeiras da humanidade, desde a hipocrisia dos políticos até a hipocrisia dos religiosos e das religiões etc. Então chega a segunda faixa, “R.E.M.F.”, igualmente agressiva e com riffs que lembram os usados em álbuns dos anos 80, como algumas músicas do “Pleasures of the Flesh” e até mesmo algumas do “Impact is Imminent”. Com uma letra que questiona, durante as guerras,  as decisões daqueles - incluindo decisões políticas -, que não estão na linha de frente (“But if gunfire were near, would they volunteer?”), muito pelo contrário, estão seguros bem longe dali, em seus escritórios. Esta segunda faixa nos mostra o quão afiados eles ainda estão ao compor suas letras, com seus riffs e seus solos, todos destruidores! “Slipping into Madness” fala sobre o uso abusivo de drogas, do seu grande comércio e de muitos jovens que acabam tirando a própria vida quando as drogas não mais camuflam suas depressões (“The opiated generation, Now a poster child for suicide, The blind consumption, Can be one's demise, As depressions in a catatonic state, Now in a coma, And breathing through a tube”). Em “Elitist” a crítica é, como o próprio nome sugere, sobre os egocêntricos, egoístas e narcisistas que manipulam e usam as pessoas para seus próprios ganhos (“Now I've used every friend I've ever had, And it doesn't look like I'm stopping there!”). “Prescribing Horror”, a um ritmo mais lento e cadenciado, embora ainda pesado, fala sobre a droga Talidomida, que era prescrita às grávidas no final da década de 50 para evitar enjoos e outros sintomas. O que parecia ser um remédio “milagroso” pelo seu excelente efeito em tais sintomas (ele combatia inclusive vários tipos de dores crônicas em vários tipos de pacientes), mostrou-se desastroso quando os bebês começaram a nascer com má formação nos membros. “The Beatings Will Continue (Until Morale Improves)”, junto da segunda faixa, traz outro dos meus riffs preferidos do álbum, riffs destruidores como um guerreiro viking cavalgando ao encontro de seu inimigo, prestes a arrancar sua cabeça com seu machado.

A segunda parte do disco abre com “The Years of Death and Dying” e “Clickbait”. A primeira, é interessante notar, traz referências muito legais em sua letra, referências que vão desde Bowie, passando por Queen e Rush, chegando em Slayer e mais. É bom ficar atento a esses detalhes que deixam o álbum ainda melhor. E esta última, por sua vez, vale dar um destaque, pois fala de um assunto muito importante nos dias de hoje, que são as fake News e jornais cujas manchetes estão cheias de mentiras convenientes para atrair o grande público não pensante (“False headlines full of lies, To keep us entertained”), sem compromisso nenhum com a verdade. É uma faixa que reforça o engajamento da banda com tais questões políticas, mesmo que cada um ali tenha suas próprias convicções. Aliás, interessante notar que, numa entrevista recente, o líder e fundador da banda, Gary Holt, disse que os membros têm opiniões políticas diferentes e que isso não os impede de serem amigos. As letras do álbum mostram que dá para chegar num lugar comum. Mas para além desse lugar comum, essa informação dada pelo líder da banda mostra que dá, sim, para as pessoas serem amigas e ainda assim terem posições políticas diferentes. Uma coisa não pode e não deve anular a outra. A nona faixa “Cosa del Pantano” é uma introdução para a faixa seguir, “Lunatic-Liar-Lord”, que traz alguns momentos um pouco mais compassados misturados a agressividade e solos inspiradíssimos. É uma crítica mordaz às religiões e os conflitos causados por elas. “The Fires of Division” e “Antiseed”, penúltima e última faixas, reforçam que todos na banda estão em grande fase, pois encerram o álbum de forma extremamente coesa, com esta última música entregando uma mistura de momentos um pouco mais lentos e um pouco melódicos com a velocidade e agressividade já determinados até aqui.

Acredito que “Persona Non Grata” não se mostra o melhor da banda, mas um dos melhores com certeza. Talvez o melhor em vinte anos. Os caras continuam ótimos, e dessas grandes bandas do gênero, é uma das que ainda está muito enraizada no Underground. Não há espaço, neste disco, para modernidades e nem para artifícios de massa pra atrair um público maior dentro do Metal. Aqui o disco é o que é. É um som pesado, cru e direto como deve ser. É um som que vai deixar feliz tanto os fãs do gênero como um todo, quanto aqueles (principalmente, talvez) que amam o Thrash dos anos 80.

  

Nota:


País: Estados Unidos.

Locação: San Francisco (Bay Area), California

Tipo: Álbum. 

Lançamento: 19 de novembro, 2021.

Gravadora: Nuclear Blast.

Gênero: Thrash Metal.

 

Banda:

·        Tom Hunting

·         Gary Holt

·         Steve "Zetro" Souza

·         Jack Gibson

·         Lee Altus

 

1.

Persona Non Grata

07:30

 

2.

R.E.M.F.

04:22

 

3.

Slipping into Madness

05:33

 

4.

Elitist

03:58

 

5.

Prescribing Horror

05:09

 

6.

The Beatings Will Continue (Until Morale Improves)

03:01

 

7.

The Years of Death and Dying

05:22

 

8.

Clickbait

04:31

 

9.

Cosa del Pantano

01:13

 

10.

Lunatic-Liar-Lord

07:59

 

11.

The Fires of Division

05:23

 

12.

Antiseed

06:17

 

 

01:00:18


 


 



quarta-feira, 24 de março de 2021

Contos da Meia-Noite (Campfire Tales, 1997)

 


★★★

Diretor: Matt Cooper, Martin Kunert e David Semel
Roteirista: Martin Kunert, Eric Manes e Matt Cooper
Elenco: James Marsden, Amy Smart, Frederick Lawrence, Christopher Masterson, Jay R. Ferguson, Christine Taylor, Kim Murphy, Glenn Quinn, Suzanne Goddard-Smythe, Jennifer MacDonald, Ron Livingston, David Cooper, Mike Terner, Matt Cooper, Hawthorne James (...).
Gênero: Terror
Ano: 1997
País: Estados Unidos

Antologias de terror costumam ser, em geral, bastante interessantes e divertidas. Ao longo da história algumas das que ganharam destaque entre os fãs de horror foram os filmes da produtora britânica Amicus – a dita prima pobre da Hammer –, com filmes como “Contos do Além” (“Tales from the Crypt”, 1972) por exemplo, que ajudaram a influenciar e a forjar o subgênero. Além dos filmes, existe também a série “Contos da Cripta” (no original também “Tales from the Crypt”) que, baseada nos quadrinhos dos anos 50, foi ao ar entre os anos 1989 e 1996 e é uma das antologias mais conhecidas do gênero.  Das mais conhecidas do grande público, hoje, estão os recentes “V/H/S” (2012/2013/2014) e “O ABC da Morte” (“The ABCs of Death”, 2012). “Contos da Meia-Noite” (1997), ou “Campfire Tales” no original, não é a melhor e nem a mais criativa das antologias, mas é bem divertida com um interessante prólogo, contos divertidos e até certo ponto assustadores e uma história central que ajuda a manter o público interessado até o final.

Após voltarem de um show, quatro amigos sofrem um acidente de carro. Por causa disso, acabam sendo obrigados a passarem a noite na estrada à espera de ajuda; no caso, eles acabam encontrando as ruínas de uma antiga igreja ali na redondeza onde resolvem esperar a ajuda chegar. Eles constroem uma fogueira e, sentados ao seu redor, contam histórias de terror para passar o tempo. Após o prólogo, “The Hook”, que trata de uma lenda urbana que fala sobre um casal de namorados que são perseguidos por um homem que utiliza de um gancho no lugar de uma das mãos para matar, a primeira história é contada pelo motorista do carro, Cliff (Jay R. Ferguson), com um intuito de assustar as garotas do grupo, Lauren (Christine Taylor) e Alex (Kim Murphy), mais o irmão da primeira, Eric (Christopher Masterson).

Dirigido por Matt Cooper, “The Honeymoon” conta a história de um casal recém-casado, Rick (Ron Livingstone, que os fãs de terror o reconhecerão como o pai da família Perron, no primeiro “invocação do Mal”) e Valerie (Jennifer MacDonald), em lua de mel, que resolvem desviar de seu caminho principal para fazerem uma espécie de turismo macabro; querem conhecer uma mina onde um acidente obrigou alguns mineiros, presos dentro dos túneis, a praticarem canibalismo para sobreviver. No meio do nada e sem gasolina, o casal encontra Cole (Hawthorne James, também conhecido como o motorista do ônibus de “Velocidade Máxima”), que logo trata de afugentá-los ao dizer-lhes que há um animal misterioso na redondeza que costuma sair para caçar nessas épocas de lua cheia. É uma história de lobisomem mediana, porém interessante e um pouco tensa que conta com todos os clichês possíveis.

Apesar das péssimas decisões de ambos os personagens (fruto de um roteiro até certo ponto preguiçoso), mas principalmente por parte do marido, o maior mérito aqui é a criação do suspense por meio dessa criatura misteriosa. Sabe-se apenas que é um lobisomem, pois são eles que saem nas luas cheias para caçar, mas a falta de mais informações aliada ao clima de perigo que surge quando eles ficam presos no meio do nada por falta de gasolina (que maravilha de clichê, hein?!) conferem a diversão desse conto. Os mais atentos (não que isso importe), descobrirão que o final deste conto é uma variação de uma das lendas mostradas no filme do ano seguinte “Lenda Urbana” (Urban Legend, 1998).

O segundo segmento é o “People Can Lick Too”, dirigido por Martin Kunert, e conta a história de Amanda (Alex McKenna), uma garota que, na véspera de seu aniversário, acaba ficando sozinha em casa durante a noite apenas com a companhia de seu cachorro, Odin. Seus pais foram à reunião de pais e mestres da escola, e sua irmã mais velha, Katherine (Devon Odessa), aproveitando a ausência dos dois, também sai para encontrar algumas amigas, dando a Amanda dinheiro para não contar aos pais sobre a escapada. Amanda tem uma amizade virtual secreta com Jessica, com a qual passa bastante tempo conversando pelo computador. O que a garota não sabe, no entanto, é que Jessica é na verdade um pedófilo (interpretado por Jonathan Fuller, que em anos anteriores atuou em filmes do Stuart Gordon, “The Pit and the Pundulum”, de 1991, e “Castle Freak”, de 1995) com quem já vem mantendo contado há tempos.

É o mais fraco dos contos e, assim como o anterior, também não traz nada de novo. O maior problema, contudo, é a condução de uma história que se propõe a ser um suspense, mas que não se sustenta solidamente por falta desses elementos. A garota fica em casa sozinha fazendo suas coisas de criança, como provar os vestidos da irmã e procurar pelo tão sonhado presente de aniversário, e muito pouco é mostrado por parte do pedófilo, que aparece adentrando a casa em alguns momentos e sendo esquecido em outros. A falta de elementos sonoros bem desenvolvidos pode ter contribuído com isso. Também falha em causar a apreensão que deveria ao público muito porque a criança não se monstra assim tão interessante, mas mesmo assim ainda carrega alguns fragmentos de tensão que o salvam do fracasso total.

O terceiro e último segmento é o “The Locket”, dirigido por David Semel, e que conta a história de Scott (Glenn Quinn), um motociclista em uma road trip que, após ter sua moto danificada, encontra abrigo numa casa no meio do nada. Nesta casa ele conhece Heather (interpretada pela linda modela australiana Jacinda Barrett), uma mulher enigmática muito por conta de sua deficiência vocal, ela é muda e só se comunica escrevendo num pequeno quadro negro que carrega consigo. Apesar de enigmática, no entanto, se mostra bastante hospitaleira e simpática, acolhendo o viajante da chuva torrencial que cai do lado de fora.

Este último é uma história de fantasmas bastante interessante e é a melhor das três. O grande mérito deste, além da boa e macabra ambientação, é ter algumas pontas que são unidas conforme mais informações são apresentadas ao público. Uma atitude que poderia ser interpretada como uma decisão ruim de um personagem, por exemplo, tem sua devida explicação quando os eventos começam a ocorrer. Com isso, coisas que parecem sem sentido a uma primeira vista, mostram-se coerentes ao olhar mais atento do espectador lá na frente da trama. Quando os fantasmas começam a aparecer, por sua vez, o clima macabro e mórbido toma conta e é acentuado pelo conjunto das construções da cena, afinal uma casa no meio do nada, sem vizinho algum por perto, a moto quebrada e uma chuva torrencial incessante apenas afunilam as alternativas que são dadas ao casal que, apesar da forma apressada com a qual tomam algumas decisões, acaba despertando sentimento de preocupação no espectador que espera passivo o desenrolar da história enquanto torce pelo melhor.

“The campfire”, dirigido por David Semel , portanto, é a história central ao redor da qual todos esses segmentos são mostrados e é responsável por ajudar a manter o público interessado entre um conto e outro, e seu papel ao incrementar novas situações (perceba que Cliff escuta e vê coisas que são justificadas mais a frente) acaba se mostrando funcional a esse propósito. Seu desfecho, após o término do último conto, aliás, é um bom, porém previsível final que encerra decentemente esta antologia de três contos baseados em lendas urbanas americanas bastante famosas que, apesar de não entregar absolutamente nada de novo, é bastante divertida. 


 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Come to Daddy (2019)

 

 

★★★★

Diretor: Ant Timpson
Roteirista: Toby Harvard (história e roteiro), Ant Timpson (idéia)
Elenco: Elijah Wood, Stephen McHattie, Garfield Wilson, Madeleine Sami, Martin Donovan, Michael Smiley, Simon Chin, Ona Grauer, Ryan Beil, Raresh DiMofte, Alla Rouba, Noam Zylberman, Gord Middleton, Oliver Wilson (...).
Gênero: Terror / Comédia
Ano: 2019
País: Canadá / Irlanda / Nova Zelândia

Elijah Wood tem demonstrado ano após ano que não é apenas o Frodo, da trilogia “Senhor dos Anéis”. O ator tem tomado decisões acertadas de atuar em filmes independentes de baixo orçamento interessantíssimos cuja maior prioridade é a criatividade das histórias aliada a uma direção competente, sem as pompas dos grandes estúdios e dos orçamentos estratosféricos. Após o divertidíssimo “Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo” (2017), do também excelente e estreante Macon Blair, vem agora o ótimo e pirado “Come to Daddy” (2019), que vai colocar um sorriso no rosto dos fãs de uma boa comédia de terror.

Norval Greenwood (Elijah Wood) recebe uma carta de seu pai (interpretado por um louco Stephen McHattie), com quem não fala desde que desapareceu de sua vida enquanto ainda criança, convidando-o a visitá-lo em sua casa isolada na floresta. Curioso por muitos motivos, e também um pouco nervoso, Norval aceita o convite esperando obter algumas respostas, o que ele não espera, porém, ao chegar lá, é ser recebido com insultos e comportamentos agressivos à sua personalidade tímida e também um tanto quanto esnobe. E aqui termina essa curta sinopse, pois informação demais podem estragar algumas surpresas e reviravoltas de um dos filmes mais malucos e insanamente divertidos do ano.

Em suma, Norval é um jovem que cresceu em Beverly Hills sozinho com sua mãe. De caráter inocente, tímido e esnobe por conta de sua convivência com pessoas famosas e ricas, Norval apresenta uma personalidade frágil tanto física quanto emocionalmente, e muito disso se deve, também, a falta de uma figura paterna em sua infância e adolescência. A falta dessa figura paterna, aliás, mostra-se como uma das boas sacadas do filme, porque quando a maluquice e insanidade acontecem, não há maneiras de prever adequadamente as reações desse personagem, que com os olhos demonstra muito toda a sua inocência e fragilidade frente a situações inimagináveis. Vê-lo lidar com tais situações abusivas e violentas é hilário principalmente pelo fato de tudo aquilo ser completamente novo para ele, que nunca sofreu ou presenciou qualquer tipo de violência durante toda a sua vida. Norval, portanto, até certo ponto é a personificação do espectador (ou pelo menos da grande maioria deles) que, assim como ele, também nunca presenciou qualquer tipo de violência em sua vida, e por causa disso, conjuntamente ao personagem, vai ser levado a pensar em alternativas para conseguir sair dessas situações.  Essa maneira de trazer o público para perto do personagem funciona e é um dos trunfos do diretor.

Falando nisso, o filme não deixa o ritmo cair por causa de uma boa quantidade de reviravoltas adequadamente inseridas em momentos estratégicos. Essas reviravoltas levam o filme a seguir caminhos contrários aos caminhos traçados a princípio, mudando completamente a direção criando situações com as quais Norval vai precisar aprender a lidar rapidamente para sobreviver, dando novos ares à trama que, juntamente com a sua curta duração, não deixa o fôlego acabar. E dentro disso o que chama atenção é o gore muito bem feito. Quando há mortes, elas são incomodamente divertidas tanto pelas situações inusitadas (e acredite, há várias!), quanto pela gravidade dos ferimentos sofridos pelos personagens, ferimentos que são todos mostrados on screen sem dó nem piedade. Algumas dessas mortes chegam a arrepiar de tão gráficas, especial e especificamente uma que ocorre no final, após uma cena divertidíssima num motel.

Todo esse sangue ganha ainda mais sentido quando o nome por trás da obra aparece: Ant Timpson. Esse neozelandês maluco assume aqui seu primeiro filme como diretor, mas trazendo influências de filmes como “Housebound” (2014), “Deathgasm” (2015) e “Turbo Kid” (2015), que foram produzidos por ele e que também carregam uma grande quantidade de humor negro e gore. Ou seja, quando o assunto é humor negro extremamente ácido e sangue jorrando na tela, é com ele mesmo.

Extremamente divertido e recheado de humor e sangue, fãs de filmes de terror oitentistas que buscam nos filmes de hoje essa aura independente e bem feita do baixo orçamento combinado às boas doses de criatividade e gore, encontrarão aqui uma boa pedida. É uma grata surpresa com a qual, bastante curioso, já começo desde já a esperar pelos seus próximos projetos.    



sexta-feira, 17 de julho de 2020

Hellraiser: Inferno na Terra (Hellraiser: Hell on Earth, 1992)


★★★

Diretor: Anthony Hickox
Roteirista: Peter Atkins; Clive Barker (história)
Elenco: Doug Bradley, Kevin Bernhardt, Lawrence Mortorff, Terry Farrell, Ken Carpenter, Sharon Hill, Paula Marshall, Robert C. Treveiler, Philip Hyland, David Young, Brent Bolthouse, Peter Atkins (…)
Gênero: Terror
Ano: 1992
País: Estados Unidos/Reino Unido

I am the way!

“Hellraiser III: Inferno na Terra” (1992) foi um dos inúmeros filmes de terror que marcaram minha infância. Lembro ainda hoje de ir à locadora com meu pai e me deparar com a capa do famigerado “demônio com o rosto cheio de pregos”. Era Pinhead, o líder dos cenobitas, que tão logo veio a se tornar um dos meus personagens preferidos do cinema de terror. Na estante estavam os três primeiros filmes, e o fato de os dois primeiros não estarem disponíveis me obrigou a começar a franquia a partir desta terceira parte. Eu era um moleque, na segunda metade dos anos noventa, obcecado por qualquer história de terror que pudesse encontrar. Se fosse das mais sangrentas e bizarras, melhor. E por isso, à época, este filme me foi um deleite: encontrei boas mortes, um pouco de blasfêmia (sim, fui uma criança muito diferente) e uma final girl linda (que de tudo o que esperava dela, infelizmente só não me entregou os peitinhos, que fiquei durante toda a duração do filme esperando para ver). Era tudo o que uma criança louca pelo gênero poderia querer.

Então comecei a franquia a partir dessa terceira parte, mas foi questão de pouco tempo até finalmente conhecer o primeiro filme e posteriormente o segundo. O primeiro, escrito e dirigido pelo brilhante Clive Barker, é uma obra de arte que traz sofrimento, melancolia, história de um relacionamento abusivo, distúrbios de caráter, sadomasoquismo etc. em sua mais de uma hora e meia de duração. O filme causa repulsa, nojo, carisma por determinados personagens, alguns sentimentos conflitantes a respeito de outros, tudo embasado numa história muito bem desenvolvida, como já era de se esperar de um escritor fora da curva. Esse mais do que excelente primeiro filme, então, definiu um padrão tão alto que ficaria difícil quaisquer obras que viessem a seguir igualá-lo ou superá-lo. O segundo, por exemplo, apesar de muito bom, não se aproxima do que o primeiro construiu, embora haja momentos que assemelhem. O terceiro... Bem, se o segundo não chega muito perto, o terceiro está mais para uma bola que erra o gol e sai para fora do estágio: está muito, muito longe. E embora eu saiba disso, isso não me impede de me divertir, com um sorriso no rosto, ainda nos dias de hoje quando o assisto. O filme tem seus erros, mas também tem, sim, seus méritos.

Aqui, a personagem principal é Joey (interpretada pela belíssima Terry Farrell), uma jornalista que ao presenciar um rapaz todo perfurado por correntes chegar ao hospital para em seguida ser violenta e misteriosamente morto, enxerga nisso uma oportunidade de investigação para tentar alavancar sua carreira decadente. Ela conhece então Terri (Paula Marshall), a garota que chegou ao hospital com o rapaz e que é responsável por dar à jornalista alguma ajuda que a acaba levando ao submundo dos prazeres violentos da carne liderado por Pinhead (interpretado pelo sempre excelente e icônico Doug Bradley). J. P. Monroe (Kevin Bernhardt), por sua vez, entra nesse triângulo como ex-namorado de Terri e responsável por liberar acidentalmente Pinhead de sua prisão.

Como já era de se esperar, o diretor Anthony Hickox conduz a história de forma completamente oposta à atmosfera criada por Barker no seu filme de estreia. Na verdade, ele segue um pouco um gancho narrativo levemente aberto pela segunda continuação. No segundo, ao contrário do primeiro, as coisas acontecem um pouco explicita e freneticamente, por assim dizer (com direito a cenas cujos personagens acabam sendo levados a uma viagem ao “inferno”), com alguns possíveis excessos responsáveis por desagradar a uma parcela (pequena, a título de registro) dos fãs da franquia, mas que ainda assim não compromete o resultado final. O foco, portanto, passa a ser mais voltado aos demônios, mostrando muito mais sobre eles e o submundo no qual vivem. Neste terceiro todo o exagero foi elevado ao quadrado. A opção foi a de criar um filme menos sério (há um diálogo entre Joey e um padre que é hilário), menos atmosférico e com menos suspense, mas mais voltado a cenas gore, personagens exagerados e diálogos com frases de efeito, e com um enfoque em Pinhead, que aparece solitário por quase todo o filme, sendo os cenobitas apresentados somente no terceiro ato. Sobre os diálogos, aliás, o que não falta aqui são frases de efeito (todas elas muito legais, diga-se de passagem). Portanto os excessos foram concebidos junto com o filme, que foi criado para ser justamente dessa forma, ou seja, sem muitas pretensões. E é nisso que reside alguns de seus erros e acertos.

As atuações são exageradas e todas beiram a canastrice pura, o que acaba criando momentos cartunescos conflitantes com momentos sérios, o que demonstra clara indecisão do diretor na condução dos atores. Apesar disso, dá para dizer com certeza que atuações ruins em filmes confessadamente exagerados não são o pior dos problemas. Dentro desse universo do terceiro filme, se visto como uma história individual, dá para relevar sem muito esforço, o problema é que ele faz parte de um universo com regras já preestabelecidas, regras essas que esse terceiro filme (e vários outros da franquia) não segue. E isso pode ser estendido a praticamente todos os defeitos que essa terceira parte possa ter. Por outro lado, o fato de o filme já ter sido concebido para ser dessa forma ajuda a diminuir um pouco o impacto negativo. Tendo isso em mente, aqueles que procuram por um bom filme de terror vão encontrar aqui uma boa fonte de diversão, pois o filme é um banho de sangue com direito a um massacre lindo num clube e também a melhor cena de toda a trama e uma das melhores de toda a franquia, quando Pinhead entra numa igreja católica à procura de Joey. Essa cena se destaca pela ousadia, pois mostra o líder dos cenobitas simulando sua própria crucificação enquanto pronuncia, no final, os dizeres da citação no início deste texto. Além disso também simula uma comunhão retirando um pedaço de sua própria carne para colocar na boca do padre: “Este é meu corpo, este é meu sangue. Felizes os que vêm a minha ceia”. Essa cena causou controvérsia na sociedade conservadora da Carolina do Norte. O diretor foi proibido de filmar numa igreja, por isso teve de criar todo o cenário num set de filmagem. Alguns do próprio elenco chegaram a reclamar da cena também, o que Hickcox conseguiu contornar ao explicar que o que ele estava fazendo não era tão diferente do que outros diretores fizeram nos incontáveis filmes sobre Drácula, da Hammer, com Christopher Lee, por exemplo. 

Com a morte de alguns cenobitas no filme anterior, Pinhead, para conseguir perseguir a protagonista e finalizar seu plano, precisou criar novos servos que dentro de suas limitações são até interessantes: tem o cenobita com a cabeça cravejada de CDs cujos quais ele usa para matar; tem o cinegrafista e amigo da protagonista que em certo ponto também se transforma numa dessas entidades, sendo ele um cenobita com uma câmera no lugar de um dos olhos; e um com alguns aparatos mecânicos atravessados na cabeça; há também uma garota com uma abertura na traqueia com um cigarro (!!!) preso a ela; e por fim outra garota com arame farpado enrolado na cabeça. Todos possuem pouco tempo em cena, o que foi pensado para poder dar mais desenvolvimento e tempo de cena ao vilão principal e líder deles.

Uma coisa que merece ser mencionada é a música tema homônima composta por Lemmy e Ozzy, que, magistralmente executada pelos lendários Motörhead com a inconfundível voz de Lemmy, fizeram-na já nascer clássica, combinando tanto com o clima do filme, e vice-versa, que chega a ser difícil separar um do outro, criando um desses raros momentos de simbiose que merecem ser apreciados. E falando em boa música, foi um dos meus primeiros contatos com o Rock ‘n’ Roll e Heavy Metal. Dali em diante eu já sabia qual rumo, musicalmente falando, eu gostaria de seguir. A trilha, inclusive, também conta com Armored Saint que, além de presentear o filme com algumas boas canções nas cenas que envolvem a boate, também aparecem representando a si mesmos nos shows desse clube. São, portanto, dois méritos que todo o fã de terror que se preze vai provavelmente elogiar: o gore de qualidade e a trilha recheada com o bom e velho Heavy Metal.

Uma curiosidade digna de nota é que a direção do filme foi oferecida a Peter Jackson, que acabou recusando a proposta por pensar que não poderia dirigir um filme de terror sério (por mais irônico que possa parecer). O neozelandês é bastante conhecido entre os fãs de terror por dirigir alguns clássicos do cinema podreira, “Náusea Total (Bad Taste, 1987)” e “Fome Animal (Braindead, 1992)”, que, além dos altos níveis de sangue e nojeira, também carregam uma carga grande de comédia, principalmente de um excelente e extremo humor negro. Ele acabou gostando do produto final, mas disse que faria modificações principalmente com relação a Pinhead. Disse, por exemplo, que gostaria de vê-lo sendo golpeado no rosto, contra uma parede, para que seus pinos fossem todos enterrados na carne e ossos, dizendo que esse tipo de humor faz parte de seu jeito de ser e de fazer cinema de horror. E de fato faz. Jackson voltaria a lançar outro filme de terror quatro anos depois, seu hilariante e ao mesmo tempo tenso “Os Espíritos (The Frighteners, 1996)”.

Então, como saldo final, “Hellraiser III: Inferno na Terra” se mostra uma continuação decente. Tem quase tudo daquilo que se procura num bom filme do gênero, boas mortes, um pouco de blasfêmia, de brinde um pouco de Metal e, como continuação, a ampliação do universo sombrio e sadomasoquista dos cenobitas e seu líder. Por outro lado, erra nas caracterizações cartunescas dos personagens, em alguns exageros e na construção dos novos e quase descartáveis cenobitas, que praticamente não possuem tempo suficiente em cena. O saldo é positivo. Chegou a marcar algumas pessoas de uma geração tanto pelo conteúdo violento quanto pela boa música. De fato não é dos maiores da franquia, mas ainda assim é uma boa e divertida continuação. 



Sessão Dupla: Os Goonies (1985) e Conta Comigo (1986)

      Os Goonies (The Goonies, 1985) – Richard Donner Conta Comigo (Stand by Me, 1986) – Rob Reiner Dentre as várias combinações possíveis...