domingo, 12 de agosto de 2018

Passagem para o Futuro (The Time Travelers, 1964)






Direção: Ib Melchior
Roteiro: Ib Melchior, David L. Hewitt
Elenco: Preston Foster, Philip Carey, Merry Anders, John Hoyt, Dennis Patrick, Joan Woodbury, Delores Wells, Steve Franken, Berry Kroeger, Gloria Leslie, Molly Glessing, Peter Strudwick, J. Edward McKinley, Margaret Seldeen, Forrest J. Ackerman
Gênero: Ficção Cientifica
Duração: 82 minutos
País: Estados Unidos




Fleming descobriu a penicilina por acidente. Roentgen, os raios X. E nós... O fim do mundo.

Ib Melchior é um diretor com apenas dois filmes em sua curtíssima filmografia. O primeiro é o bom sci-fi "The Angry Red Planet", de 1959, e o outro, é este, "The Time Travelers", que veio 5 anos depois. Como roteirista, no entanto, sua filmografia se revela mais extensa. Coescreveu, por exemplo, "Live Fast, Die Young", em 1958, juntamente com Allen Rivkin; em 1961, o filme "Reptilicus" junto com Sidney W. Pink; em 1962, o filme "Journey to the Seventh Planet"; e em 1964, o filme "Robinson Crusoe on Mars"; dentre outros.  O diretor que também assina o roteiro, trabalha nesta sua última empreitada, como o próprio título do filme sugere, o tema viagens através do tempo. É um filme B de baixíssimo orçamento extremamente divertido e muito bem dirigido, com cenas que possuem planos longos muito bem desenvolvidos e uma história que, se peca pelos clichês e por algumas conveniências, acerta na criatividade e fluidez.  



Um grupo de cientistas, liderado pelo Dr. Erik von Steiner (Preston Foster), está estudando os conceitos da viagem através do tempo no laboratório da universidade onde trabalha. Eles desenvolveram uma máquina capaz de realizar tais viagens, no entanto ainda está em fase primária de testes, testes estes, aliás, que não vem apresentando bons resultados já há algum tempo, para a tristeza dos cientistas. Sem desanimar, no entanto, o grupo continua com o experimento até que Dr. Steve (Philip Carey) percebe que pode haver um meio de fazê-la funcionar, mas é um meio um tanto quanto perigoso, pois, se falhar, a máquina pode sofrer danos irreversíveis. Sendo então a única maneira de conseguir êxito, Steve (um pouco inconsequente diante de tais fatos - ou não?) acaba pondo o plano em prática, forçando a máquina até o ponto em que acontece o óbvio. A máquina sofre alguns problemas que, por coincidência (!!!), acaba gerando um resultado bastante interessante e imprevisível naquele momento, eles são levados a 107 anos no futuro para descobrirem que o planeta foi devastado e já não mais existe como antes. Essa imagem do futuro é projetada  numa espécie de tela gigante fixada na parede do laboratório.

Um empregado da universidade, Danny (Steve Franken), bastante curioso, acaba percebendo que aquilo é muito mais do que apenas uma imagem projetada na parede, aquilo é, literalmente, uma passagem. Óbvio que ele iria atravessá-la! Dentre todos os riscos, o pior é o de a passagem fechar deixando-o preso para sempre do outro lado. Eis então que um efeito cascata ocorre, Dr. Steiner sai a sua procura, seguido por Steve e por Carol (Merry Anders) (uma atitude bastante inteligente para um grupo de cientistas, não?). Claro que o resultado não poderia ser outro, a passagem, após todos terem a atravessado, enfraquece e desaparece, deixando-os presos do outro lado. 



 
Perdidos, os três passam a ser perseguidos por criaturas deformadas bastante hostis (criaturas estas que lá na frente descobre-se que são mutantes gerados a partir da radiação deixada pelas guerras nucleares pelas quais a Terra havia passado). Durante a fuga acabam encontrando Danny, que os ajuda a chegar a uma caverna  no pé das colinas que os rodeiam. No entanto encontram outras criaturas tão feias quanto que os encurralam. A tensão se estabelece por alguns instantes, pois, sem ter para onde ir, não há mais nada a se fazer. É então que súbitamente aparece a Dra. Gadra (Joan Woodbury), uma das cientistas remanescentes do planeta que logo trata de acalmá-los para então explicar-lhes que aqueles são apenas seus inofensivos androides e que, apesar da aparência assustadora, não são nada perigosos.

Sem muitas delongas, os quatro são levados a conhecer seu líder, Dr. Varno (John Hoyt), que, numa conversa bastante franca, conta que ele e seu grupo, Dra. Gadra, Dr. Willard (Dennis Patrick) e cia possuem um projeto no qual estão trabalhando para poderem sair do planeta Terra devastado para outro planeta fora do sistema solar com condições parecidas  com as que a Terra tinha anteriormente, completamente capaz de abrigar vida. Questionados sobre a Terra devastada, Varno bem brevemente explica que o próprio ser humano causou aquilo através de anos e mais anos de guerras nucleares.

Os filmes são um retrato de seu tempo. Alguns em maior grau, outros em menor. Na década de cinquenta e sessenta, principalmente na de cinquenta, uma forte tensão causada pela guerra fria colocava as pessoas sob uma grande incógnita. Enquanto passavam os dias temendo uma possível guerra causada pelas tensões entre Estados Unidos e União Soviética, muitos questionamentos vinham às suas mentes, sendo o principal o que poderia acontecer caso uma guerra dessas se concretizasse. Muitos filmes surgiram a partir disso, e em pleno 1964 também se pode usar dessa abordagem como uma interpretação. E aqui o diretor deixa bastante claro sua intenção de mostrar os efeitos maléficos e extremamente destrutivos que guerras, principalmente as nucleares, podem causar ao planeta e seus habitantes, deixando uma mensagem de alerta a todos.



Outro ponto interessante é com relação aos mutantes, que estão em constante briga com os cientistas remanescentes do planeta. Briga que tem durado anos a fio e que aparentemente não terá fim enquanto ambos ainda estiverem no mesmo planeta. São vistos pelos olhos dos cientistas que restaram como os vilões, como algo a ser destruído. No entanto, algo acontece lá para o meio do filme que coloca esses mutantes sob outra perspectiva. Quando da invasão da base, um mutante é encontrado pela Dra. Carol que, ao perceber que ele é o contrário do que todos diziam, mostrando-se um mutante inofensivo e assustado, tenta então ajudá-lo, o que causa um pequeno confronto contra os outros cientistas da base que insistem em dizer que ele deve ser exterminado, pois, mesmo sendo até mesmo entre os mutantes um ser de pouca relevância, por ser diferente dos outros, ainda assim é um ser deles e merece ser morto, afinal ele não pertence àquele grupo e veio de fora. Carol é a primeira a questionar tais atitudes, afinal, apesar de mutantes, ela ainda os vê como seres humanos. A fato de a radiação tê-los deformando não muda este fato. Tão prontamente ganha respaldo dos amigos que dizem “se ele precisa ser morto por ter vindo de fora, seguindo esse raciocínio, então nós somos os próximos na lista?”. É aqui que o público é pela primeira vez levado a se questionar sobre quem de fato são os verdadeiros vilões.



Em meio a tudo isso, Danny, o ajudante dos cientistas é o alívio cômico que infelizmente não se mostra funcional à história. Percebe-se que está ali apenas por dois motivos, para ser o desencadeador dos acontecimentos – nada do que se vê em tela teria acontecido se o imbecil não tivesse sido imprudente o bastante para atravessar o portal – e ser engraçadinho em momentos pontuais com o intuito, infelizmente falho, de quebrar a tensão. São poucos esses momentos, mas esse pouco não é bom o suficiente como o diretor talvez tenha imagino que poderia ser e por causa disso acaba atrapalhando. Esse personagem, aliás, protagoniza um dos momentos mais constrangedores de todo o filme, quando se vê sob o interesse de uma das mulheres do setor de construção e manutenção dos androides. Há inclusive uma quebra da quarta parede totalmente desnecessária que está ali apenas para que o infeliz solte sua infame piadinha vergonhosamente sem graça. Não serve a um propósito narrativo bem definido e definitivamente não funciona, principalmente porque se destoa daquilo já estabelecido até então.



Os mutantes, por sua vez, não aparecem muito. Após aquele início, eles demoram a voltar à cena. O senso de perigo não se instala por completo, pois a ideia de que se tem no decorrer da trama é que os problemas parecem não demorar a resolver-se. Sabe-se que os mutantes podem atacar a qualquer momento, no entanto se sabe, também, que aquele grupo de cientistas está preparado para qualquer eventualidade, afinal há muitos androides por lá que podem ajudar e foram construídos justamente para esse fim. Mesmo que não sejam muitos, ainda assim são suficientes para oferecerem a ajuda necessária. O problema maior é que, se algo acontecer à missão, eles não mais poderão ir até Alfa Centauro (o planeta para o qual pretendem mudar-se) e consequentemente morrerão. É baseado nisso que o diretor tenta elevar a tensão nessa segunda metade. 

O problema maior, por parte dos viajantes do tempo, encontra-se em Willard. O Dr. já deixou bem claro desde o início que não gostou deles quatro, uma antipatia que o roteiro não faz muita questão de explicar. Aproximando-se do fim, um grande evento ocorre colocando sob um grande risco toda a missão, entregando uma surpresa interessante e completamente inesperada lá no seu final. É simples, como todo o filme o é, mas que funciona por ser intrigante e instigante, além de dar ao final um sabor gostoso de que o filme valeu a pena. Àqueles que gostam de ler e pesquisar sobre os mecanismos do universo provavelmente se sentirão instigados. Surpresas como esta, desde que bem desenvolvidas, são muito bem vindas.

O elenco, por sua vez, está muito bem e ninguém deixa a desejar dentro do que se espera de um filme B de ficção científica de baixíssimo orçamento. Na cena onde Carol encontra o mutante abandonado escondido dentro da base e que quase foi morto por Willard – só não foi morto por causa dela própria e de seus amigos, como foi dito –, é interessante por conta de uma curiosidade; aquele ator, extremamente desconhecido, é Peter Strudwick. O fato de ser desconhecido é explicável, este foi o primeiro de seus dois únicos papeis no cinema, o segundo e último veio quase duas décadas depois, em 1981, quando participou do documentário "Being Different". Strudwick nasceu com deformidades nas mãos e sem pés devido sua mãe ter contraído rubéola durante a gravidez. O próprio foi à casa do diretor e roteirista pedir um papel no filme. Esse papel e sua breve aparição foram escritas especialmente para ele, após a conversa que ambos tiveram.



Além de tudo, "The Time Travelers" foi um importante filme à época, pois influenciou, em 1966, a série "The Time Tunnel ", que fez certo sucesso nas TVs durante os anos de 66 e 67, mas que teve apenas uma primeira temporada; e também por ter influenciado o filme "Jornada ao Centro do Tempo (Journey to the Center of Time)", em 67, com o ator Scott Brady, que nos anos 80 viria a tornar-se um grande conhecido dos fãs de terror como o Xerife Frank, de "Gremlins".

A produção do longa começou em 1963 com o título provisório de "Time Trap", no entanto o orçamento baixo de aproximadamente 250 mil não era o bastante para suportar toda a linha do tempo complexa pela qual a história se desenrola. Ainda assim a película foi muito elogiada pela forma como o diretor usou os recursos necessários sem estourá-los. Os efeitos, apesar do baixo orçamento, são muito bons, com portais que se abrem e se fecham, explosões e tudo o mais. É o que faz parte daquela máxima dentro do cinema, criatividade vale mais do que um orçamento inchado. 
 

Sendo um típico filme B de ficção científica, é evidente que os roteiristas não tratariam fielmente as leis da física como elas realmente são; é óbvio que existirão erros e liberdades criativas em filmes assim. Quem assiste a um típico sci-fi B, principalmente os da década de cinquenta e sessenta, sabe disso. Evidente que tudo isso se torna aceitável, uma vez que são liberdades criativas que trabalham em função da história e não contra ela. Imagine só se todos os sci-fis produzidos resolvessem obedecer a risca todas as leis da física? Esmagadora maioria dos filmes não seriam os clássicos que são, alguns sequer existiriam. É necessário, neste ponto, observar a proposta de cada filme e interpretá-la dentro daquele determinado contesto estabelecido. Um filme como este não é como os novos "Gravidade", de Alfonso Cuarón, e "Interestelar", de Christopher Nolan, que têm como proposta justamente o oposto, ou seja, retratar fielmente todas as leis da física que conhecemos. Tendo isso em mente, é engraçado notar que, quando citam a viagem a Alfa Centauro, dizem que a distância até lá é de 25 mil bilhões de milhas (usando o sistema métrico americano), sendo que a real distância é de 4,37 anos-luz do nosso sistema solar, o que equivaleria a aproximadamente 25 trilhões de milhas. Uma falha, lógico, que não chega a comprometer em hipótese alguma.


"Passagem para o Futuro" é, enfim, um divertidíssimo exemplar que agrada pela história em si bastante instigante – viagens através do tempo sempre foram algo muito interessante de se ver nos filmes –, pela forma como o diretor conseguiu contornar o orçamento minguado e entregar ótimos efeitos especiais que, vale lembrar, não decepcionam, e também pelo excelente e inesperado final... É um conjunto de fatores que somados fazem desta uma película a ser descoberta e redescoberta. Merecia ter ganhado uma edição caprichada em DVD e Blu-ray.


domingo, 15 de julho de 2018

The Void (2016)







Direção: Jeremy Gillespie, Steven Kostanski 
Roteiro: Jeremy Gillespie, Steven Kostanski
Elenco: Aaron Poole, Ellen Wong, Kathleen Munroe, Kenneth Welsh, Art Hindle, Stephanie Belding, Daniel Fathers, James Millington, Dennis Nicomede, Mark Fisher, Amy Groening, Evan Stern, Trish Rainone, Grace Munro, Mik Byskov, Keith Bowser, David Scott, Janine Davies, Jason Detheridge.
Gênero: Terror
Duração: 90 minutos
País: Canadá / Estados Unidos 



  
Jeremy Gillespie e Steven Kostanski são dois jovens diretores conhecidos pelas colaborações com Guillermo Del Toro em filmes como “Pacific Rim” (2013) e “The Shape of Water” (2017), tendo trabalhado no departamento de arte e maquiagem dos filmes como segundo assistente. Além deste, um dos trabalhos mais recentes e aclamados da dupla é o novo “IT” (2017), sendo que o primeiro trabalhou no departamento de arte, e o segundo, no de maquiagem. São dois novatos muito talentosos dentro de seus ramos e são fãs assumidos de horror, por isso mergulham de cabeça neste que é seu primeiro e mais íntimo projeto que nada mais é do que uma homenagem ao horror oitentista feitos por diretores como Canperter, Clive Barker e até mesmo pelo mestre italiano Lucio Fulci. As homenagens, no entanto, não param por aí, como poderão ver nos parágrafos seguintes.  
 

Os diretores não perdem tempo já iniciando a trama mostrando um assassinato brutal a sangue mais do que frio – diria quase congelando. A câmera mostra duas pessoas tentando fugir de uma casa, sendo que uma delas consegue, o rapaz, e a outra, uma garota, é brutalmente assassinada por duas pessoas, Vincent (Daniel Fathers) e seu filho (Mik Byskov), que não bastassem meterem bala contra a moça, ainda ateiam fogo. Toda cena é observada por pessoas encapuzadas vestindo branco com um símbolo negro de um triângulo no centro do capuz que lhes cobrem o rosto. Logo após, o policial Daniel Carter (Aaron Poole) em patrulha numa rodovia, percebe um rapaz, aparentemente drogado, tentando sair do meio dos arbustos. Ele o autua para então mostrar ao público que o rapaz na verdade é o que conseguiu fugir da casa, seu nome, descobre-se mais adiante, é James (Evan Stern). Como o rapaz está muito debilitado e com marcas nos braços e com quase zero de reação, o policial resolve levá-lo até o hospital mais próximo, que é onde acontece toda a ação. 

 
Estando neste hospital, a enfermeira Allison (Kathleen Munroe) o recebe e o ajuda a levar o rapaz até um quarto para ser atendido. Então mais personagens são apresentadas, a estagiaria Kim (Ellen Wong), o médico Richard Powell (Kenneth Welsh), um avô na sala de espera com sua neta grávida, aparentemente em trabalho de parto, Ben (James Millington) e Maggie (Grace Munro). Após a primeira morte – extremamente sangrenta, diga-se de passagem – e alguns outros problemas, pai e filho, que foram apresentados lá no início da história, chegam completamente malucos com uma espingarda e sedentos de raiva à procura do rapaz que tinha fugido havia pouco. Daniel então percebe que está sem comunicação com a central para então o sangue e as bizarrices começarem a acontecer de fato. O que se cria a partir disso é uma história claustrofóbica onde não há para onde ir, nem a quem recorrer, pois, além de estarem sem comunicação, esses membros encapuzados de uma seita macabra fecham o cerco contra o hospital impossibilitando aqueles que ali estão de fugir. É o famoso “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, pois além disso tudo, ainda há coisas estranhas e enigmáticas, além das mortes violentas, acontecendo dentro local. Não há saída, literalmente. 

 
O filme não possui muitas personagens, é um elenco enxuto, principalmente em vista do baixo orçamento do qual a produção se dispunha. Desses personagens, pode-se dizer que nem um é tridimensional; no entanto tal exigência não faz sentido em um filme B como este ou em qualquer outro filme B que se preze de qualquer época – diria principalmente os da década de oitenta. Este não é um filme da Nouvelle Vague ou do Neorrealismo italiano. Personagens não tão bem desenvolvidos sempre existiram neste gênero, vide a esmagadora maioria dos que foram feitos na época a qual “The Void” se propõe a homenagear. Sim, é um problema, mas um problema que em filmes assim dá para relevar, principalmente quando em questão o roteiro é bem amarrado de modo que consiga desenvolver as situações nas quais esses personagens estão inseridos sem deixa-los cair na repetição e no marasmo. Aqui um ponto puxa o outro e a história se desenrola levemente.

Ainda com pouco desenvolvimento de personagens, estes possuem uma quantidade considerável de humanidade e por isso fazem com que o espectador consiga, até certo ponto, relacionar-se com alguns deles. Isso acontece porque são problemas reais pelos quais eles passam, como por exemplo o policial que tenta seguir os passos do pai e não tem uma boa relação com sua esposa, enfermeira do hospital, para que mais adiante se descubra que esse relacionamento desgastado acontece por causa de uma perda que ambos tiveram, mas que parece tê-la afetado mais; a estagiária preguiçosa e pouco voluntariosa; a garota grávida esperando para ser atendida. São coisas mundanas que acontecem todos os dias na vida da maioria das pessoas. Essa parte da carga dramática real conferida a esses personagens ajudam a desenvolver um senso de empatia através do qual fará com que se crie um “engajamento” que é muito importante em filmes assim. 

Boa parte das atitudes desse grupo de pessoas ajuda a tocar a trama adiante, e isso é bom para a fluidez, pois passa a sensação de progresso e de que essas personagens são importantes para a trama. Nesse ponto, há a cena na qual a estagiária ajuda a guiar Daniel e os outros três nos corredores subterrâneos do hospital. Se não fosse por ela, eles não teriam descoberto uma misteriosa escadaria. Portanto, dentro de suas limitações, o que se vê é o típico desse tipo de produção, e os personagens, embora nada brilhantes e um pouco estereotipados, possuem um nível de contribuição necessário para o desenvolvimento.

Os efeitos e maquiagem merecem ser parabenizados e ressaltados também. Apesar do baixo orçamento, os jovens diretores não pouparam esforços para entregar uma obra recheada de gore e nojeiras, além, é claro, de excelentes efeitos especiais referentes ao terceiro ato. É um trabalho de dar orgulho. Orgulho este, aliás, que Clive Barker deve ter sentido ao ver o “monstro” em carne viva que muito se assemelha a Frank de sua obra máxima. 

 
Os dois jovens diretores se propõem a homenagear alguns nomes importantes do gênero nesta que é sua primeira produção, e acertam em cheio ao conseguir fazê-lo de modo que soe natural, fazendo-o caminhar com suas próprias pernas sem que pareça apenas mais um emaranhado de referências avulsas. O horror lovecraftiano que permeia toda a obra e é enfatizado no terceiro ato é um elo com a atmosfera e referências ao cinema do mestre Carpenter, e tudo isso se liga bem com a proposta de fazer um horror cósmico e de seita cheio de mistério. Há uma boa dose, por exemplo, de “The Thing” aqui, encontrada principalmente nas pessoas que se transformam naquelas criaturas com “tentáculos” que saem pelos orifícios, remetendo às transformações apresentadas por Carpenter em sua ficção, além, claro, da própria trilha sonora.

Não é um filme, no entanto, com grandes pretensões, e se você é um daqueles que acompanhou parte da divulgação do longa à época, ou que apenas assistiu ao trailer, verá que os diretores entregam aquilo que prometem, sem mais nem menos. Claro, isso não é garantia de que vá agradar a todos, na verdade a proposta é bem o oposto disso. O longa chegou relativamente a dividir um pouco algumas opiniões até mesmo dentro dos apreciadores do gênero, alguns amaram – como é o meu caso –, outros já não gostaram tanto assim, embora ainda tenham gostado. Para uma melhor apreciação, o importante – que aliás, é o essencial a se fazer sempre e com todos os filmes – é tentar entender sua proposta e então comprá-la, deste modo, o filme sendo bem-feito do jeito que é, provavelmente irá agradar a uma boa parcela daqueles que o assistirem. 

Dito isso, “The Void” é um delicioso culto às entidades ancestrais cósmicas cuja trama claustrofobicamente bem amarrada faz homenagens sem que as deixe cair na repetição, sendo repleta de nojeiras e gore de excelente qualidade, além do fato de que levanta mais questionamentos do que respostas, abrindo um leque de opções para a mente daqueles que gostam de brincar de criar teorias e interpretações.


Sessão Dupla: Os Goonies (1985) e Conta Comigo (1986)

      Os Goonies (The Goonies, 1985) – Richard Donner Conta Comigo (Stand by Me, 1986) – Rob Reiner Dentre as várias combinações possíveis...