sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Iceman (Der Mann aus dem Eis, 2017)




Diretor: Felix Randau.
Roteirista: Felix Randau.
Elenco: Jürgen Vogel, Susanne Wuest, André Hennicke, Sabin Tambrea, Franco Nero, Violetta Schurawlow.
Gênero: Aventura/Drama
País: Alemanha / Itália / Áustria  

“Iceman”, ou “Der Mann aus dem Eis” em seu título original, traz uma premissa simples, porém fascinante. Conta a história da múmia europeia mais bem preservada que se tem conhecimento, acidentalmente encontrada no ano de 1991 nos Alpes entre Itália e Áustria. Tão bem preservada, aliás, que se acreditou de início tratar-se do corpo de algum alpinista morto há poucos invernos atrás.  A polícia de Munique, na Alemanha, chegou a investigar o que seria o assassinato de Ötzi (nome com o qual batizaram a múmia) descobrindo que o homem foi ferido na mão e nas costas por uma flecha, ficando nos Alpes italianos para ser soterrado pela neve junto aos seus pertences. A morte, de acordo com os investigadores, foi devida a hemorragia causada pela flecha que o atingiu no ombro esquerdo, e o que motivou o assassinato foi muito provavelmente uma vingança, uma vez que o corpo foi deixado junto de tudo o que carregava. Estudos posteriores constataram que a múmia data de 5300 anos atrás.

O diretor e também roteirista alemão, Felix Randau, conta a história do nosso herói em uma trama de vingança com fantásticas cenas de batalha em meio a lindos planos da majestosa natureza da região. Kelab (nome dado ao personagem na trama; os motivos que levaram o diretor a não levar para a tela grande o nome original são desconhecidos por mim) sai para caçar no que parece ser um dia normal, porém, ao voltar, percebe que sua tribo foi completamente dizimada por um grupo rival que, além de matar a todos, também rouba seu tesouro, chamado de Tineka. O que se vê a seguir, portanto, é uma história de vingança no qual Kelab vai atrás do grupo com um bebê (único sobrevivente da investida) e uma cabra, que ele utiliza para amamentar o recém-nascido.

O primeiro ato consiste em apresentar os personagens mostrando o papel de Kelab naquela comunidade. Além de ser o provedor – é ele quem sai para caçar –, também atua como uma espécie de xamã, o que pode ser observado no ritual feito para a mulher que acaba morrendo ao dar a luz ao bebê que ele carrega após os ataques. O ataque, aliás, é lindamente bem dirigido, com uma longa cena em plano sequência que entra e sai das casas e rodeia os personagens para mostrar absolutamente toda a investida em detalhes. E a violência mostrada é tão palpável que por pouco o cheiro de sangue não atravessa a tela da televisão. O espectador não é poupado durante o filme todo inclusive. Mesmo que essa violência se mostre pontual, quando ela acontece, acontece de maneira a mostrar com detalhes os ataques. Como o filme acompanha mesmo apenas Kelab, suas habilidades de caça não são mostradas em detalhe num primeiro momento, servindo apenas como ponto de partida para serem desenvolvidas no segundo ato. É aqui que ele realmente mostra do que sabe, tanto ao perseguir seus inimigos quanto nos embates corpo a corpo. A trilha sonora contribui muito nesses momentos, pois muitas das vezes se apresenta como a música tribal muito semelhante ao que era feito na época, e isso ajuda muito quem está assistindo a imergir nesse hostil mundo neolítico.

No terceiro ato ocorre o já conhecido embate que o deixou ferido para morrer na montanha, com o diretor mostrando de forma bastante verossímil o que se acredita que tenha acontecido por meio das evidências coletadas pelos pesquisadores. Sua relação com o tesouro roubado, a propósito, ganha inclusive um desfecho bastante interessante nesta última parte, com o personagem agindo de forma curiosa ao objeto, dando até mesmo um espaço para interpretação. Apesar da simplicidade da trama, tudo o que foi retratado condiz com as vidas desses caçadores, e percebe-se que a luta pela sobrevivência vai muito além do que se acredita ser o simples dessa época ancestral. A relação de quem é bom e de quem é mau, nestas condições, talvez dependa da perspectiva. De fato não está longe da realidade desses povos. Portanto, a ideia de pegar os estudos feitos com a múmia, com as informações que se obtiveram a partir dos estudos que consequentemente proporcionaram saber como talvez tenha sido sua vida até o momento de sua morte, não apenas se mostra excelente, como fascinante! 




quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Gwen (2018)



Diretor: William McGregor.
Roteirista: William McGregor.
Elenco: Eleanor Worthington-Cox, Maxine Peake, Richard Harrington, Mark Lewis Jones, Kobna Holdbrook-Smith, Richard Elfyn, Gwion Glyn, Jodie Innes.
Gênero: Drama/Horror.
País: Reino Unido. 


Primeiro projeto para o cinema do diretor e roteirista inglês William McGregor, “Gwen” é um filme de baixo orçamento (estimado em dois milhões de dólares) que conta a história da personagem homônima e sua família, sua irmã caçula Mari (Jodie Innes) e a matriarca Elen (Maxine Peake), que vivem sozinhas durante a revolução industrial numa casa isolada nas montanhas de Gales, na região rural do país, enquanto o marido e figura paterna não retorna da guerra.  A família vive momentos turbulentos enquanto pragas assolam a região, além da pressão exercida pelo dono de uma pedreira, que está em vias de expansão até aquela região, para que lhe vendam a casa.

O filme já dita o ritmo logo nos primeiros momentos, com o diretor estreante comandando a câmera com movimentos lentos que convidativa e cuidadosamente caminham entre os cenários, sugestivamente mostrando apenas o necessário de modo que contribua para que o espectador colha as informações necessárias para montar o quebra-cabeça, de uma maneira que lá no terceiro ato seja recompensado com o que de fato está acontecendo naquele meio. O suspense crescente se deve muito a isso e é reforçado com o fato de que a trama acontece sob o ponto de vista da jovem. Assim, é interessante notar o cuidado que o diretor e roteirista tem de mostrar apenas o que a garota consegue ver e ouvir dentro daquele meio em que está inserida, como por exemplo no momento em que a mãe conversa com um homem, na saída da igreja, e o espectador apenas consegue ouvir a conversa enquanto a garota ainda está por perto. Conforme ela se afasta e consequentemente não consegue mais ouvi-los, o espectador também não os ouve. Ela dá as costas e lentamente sai de perto enquanto a imagem dos dois conversando na porta da igreja ligeiramente se desfoca e sai do ângulo da câmera. Isso tudo ajuda no desenvolvimento do tom enigmático da história, pois são momentos importantes da trama que poderiam dar informações cruciais sobre o que está acontecendo, mas não dá por causa da acertada escolha narrativa de mostrar os acontecimentos sob a ótica da filha e não da mãe.

As informações dadas pelo roteiro, aliás, são sutilmente discretas e variam desde informações básicas dentro da própria história, como quando alguém é acusado de roubar um remédio, e isso acaba acarretando algumas ações esclarecedoras dentro da trama, à linguagem utilizada, quando, por sua vez, ao mostrar uma imagem distorcida e desfocada através do vidro, ajuda a mostrar o possível desencadeador daqueles eventos, embora ainda não se saiba como e por quê. O maior pecado, no entanto, é um ou outro momento desnecessariamente expositivo que, assim como um jumpscare, que embora efetivo, destoa daquilo que tinha sido construído até ali. Na verdade o terceiro ato quase todo assume um tom mais esclarecedor, deixando de lado a sugestividade para dar lugar às informações mais claras para não deixar dúvidas sobre o que está ocorrendo dentro daquela família. O tom atmosférico criado pelos movimentos lentos de câmera, por outro lado, são corroborados pela trilha sonora lenta e pesada igualmente atmosférica que também ajuda na criação da tensão, passando sempre a sensação de perigo. O fato de a trilha estar sempre presente ajuda a passar a ideia de um perigo iminente, colaborando com o senso de alerta, mostrando-se como um grande acerto.

Por fim, o terceiro ato se encerra de forma extremamente pessimista ao mostrar aonde de fato reside o verdadeiro horror. É um horror palpável do qual não se pode escapar, é implacável e violento, especialmente violento contra aqueles mais fracos que não podem ou conseguem abrir mão daquilo que possuem. E a trajetória da jovem Gwen e sua mãe demonstra bem isso tudo.




terça-feira, 9 de julho de 2019

Orca: A Baleia Assassina (Orca, 1977)



Diretor: Michael Anderson.
Roteirista: Luciano Vincenzoni, Sergio Donati.
Elenco: Richard Harris, Charlotte Rampling, Will Sampson, Bo Derek, Keenan Wynn, Robert Carradine, Scott Walker, Peter Hooten, Wayne Heffley.
Gênero: Horror/Eco-horror.
País: Estados Unidos. 

Quando comecei a pensar na possibilidade de rever este filme, ficava imaginando como seria minha reação a um dos clássicos da minha infância e adolescência. Já fazia tanto tempo desde a última vez que era inevitável pensar como tal revisão afetaria minha opinião e meus sentimentos para com essa obra tão importante para mim. Felizmente os sentimentos ainda continuam o mesmo, uma nostalgia que bate no peito e ainda faz-me lembrar das boas sessões que tinha quando era moleque nas tardes após voltar da escola. O que mudou, no entanto, foi minha opinião, que infelizmente já não é mais a mesma após essa visita.  
A História gira em torno de um pescador de tubarões, Capitão Nolan (Richard Harris) e sua tripulação, que resolvem expandir o negócio caçando orcas. As coisas então começam a degringolar quando passam a ser perseguidos, após uma caçada malsucedida, por uma orca vingativa que faz questão de tentar matar um por um.

 
Após a gênese do eco-horror com “Tubarão” (Jaws, 1975), muitas imitações, plágios e filmes inspirados neste vieram a seguir. O subgênero que possui alguns clássicos cult como “Grizzly, a Fera Assassina” (Grizzly, 1976), “A Maldição das Aranhas” (Kingdom of the Spiders, 1977), “Piranha” (1978) e este próprio, vieram para ajudar a consolidar histórias sobre animais assassinos numa época em que alguns filmes bastante interessantes - embora sejam cópia da cópia da cópia - sobre o tema eram produzidos. Na década de setenta e oitenta, no entanto, eram em sua maioria genéricos baratos do seminal “Jaws”. E aqui, aliás, a coisa não é tão diferente."Orca" surgiu como espécie de derivado com uma história muito parecida cujo intuito foi tentar trazer um diferencial com relação ao tipo animal assassino. Já existiam filmes com aranhas, ursos, tubarões, coelhos, mas com orcas, não. Foi algo bastante interessante trazer aos cinemas um animal como vilão cujo nome popular carrega a palavra "assassina". Tinha pano para manga. Infelizmente foram panos furtados da manga de algo já feito anteriormente.

Um ponto a favor com relação a trama é que ela é conduzida por um suspense que tem como um de seus alicerces a superstição do povo local, que acha que esses animais possuem atributos que, de alguma forma, são capazes de trazer azar àquele povoado caso alguém os faça mal, podendo inclusive atrapalhar a pescaria daqueles que dependem disso afastando os peixes da região, como se possuíssem consciência para isso. É posto que as orcas talvez possuam um cérebro e inteligência superiores aos do ser humano, e que, de uma forma ou de outra, são capazes de fazer coisas extremamente complexas e incompreensíveis para nós. Dentro disso, o diretor consegue até certo ponto conduzir as cenas de modo a deixar esse suspense em um nível relativamente alto por meio dessa sugestividade (não tão sugestiva assim, como verá adiante), ao mostrar a orca tomando certas atitudes que outros animais com o cérebro não tão complexo quanto talvez não tomariam. Essa sugestividade, aliás, é bastante frágil, uma vez que, por mais que o diretor queira que o espectador decida por si mesmo, ele de certa forma acaba manipulando determinadas ações de modo a já deixar direcionada a conclusão que ele quer que você chegue. Ou seja, a sugestividade só ocorre quando é conveniente. Apesar desses momentos conflitantes no decorrer da trama, é interessante ver e pensar se tudo aquilo que está acontecendo - quando lhe é permitido interpretar - está sendo minuciosamente calculado pelo bicho ou não.

 
Por outro lado, mesmo com os clichês abundantes (como o homem que cai do barco justo na hora em que o animal aparece, por exemplo, num show de obviedade) e personagens que não possuem um mínimo de desenvolvimento (como um que sai de cena para não mais dar satisfação), pode-se dizer que o elenco se sai bem. Richard Harris é o que tem o maior arco e o que consegue entregar mais de sua interpretação por ter tido mais tempo em cena. Will Sampson, que interpreta o indígena Umilak, embora apareça de forma discreta e infelizmente subdesenvolvida, contribui com a parte “sobrenatural” da trama ao incrementar as histórias e costumes de seus antepassados relacionados ao animal. Já Bo Derek, que interpreta Annie, é um dos pontos fracos, aparecendo pouco e sem ter muito a contribuir, no entanto protagoniza uma das melhores cenas do filme. E como não falar de Charlotte Rampling? A atriz indicada ao Oscar pelo filme “45 Anos” (45 Years, 2015) é a segunda com maior tempo em cena, possuindo um arco também maior do que os outros, o que lhe permite entregar uma das melhores atuações do filme.

Os efeitos práticos juntos com a excelente trilha do Maestro Morricone (que sem dúvida é a melhor coisa do filme) são outros pontos altos que merecem ser ressaltados, e poderiam inclusive ter elevado a obra a outro patamar caso não houvesse tanta fragilidade no roteiro e na direção. Muito do que se vê aqui, aliás, é muito parecido com os acontecimentos da obra do Spielberg, deixando claro que um dos objetivos da produção era capitalizar em cima do sucesso estrondoso que foi “Jaws”, tornando o filme em um genérico caça-níquel um tanto quanto cara de pau. O fim do filme, por exemplo, é muito parecido com o fim do outro, com a tripulação indo de barco à procura do animal passando por todo tipo de perigo similar ao que Brody, Quint e seus parceiros passaram.

No entanto, mesmo com todos esses problemas e a picaretagem toda, “Orca” ainda é capaz de deixar os fãs do gênero (leia-se fãs de podreiras - embora o filme não tenha ares de podreira descarada) tensos em alguns bons momentos de suspense e de ataque da criatura, e, embora tenha caído no meu conceito como obra cinematográfica, ainda conseguiu me deixar atento durante os seus 92 minutos de duração, ainda desencadeando bons sentimentos. É um filme cujo qual tenho enorme carinho principalmente pelas boas lembranças das sessões que tinha durante a tarde. Com certeza irei revisitá-lo eventualmente.   



domingo, 23 de dezembro de 2018

House of the Dead (Alien Zone, 1978)




Diretor: Sharron Miller.
Roteirista: David O'Malley.
Elenco: John Ericson, Ivor Francis, Judith Novgrod, Burr DeBenning, Charles Aidman, Bernard Fox, Richard Gates, Elizabeth MacRae, Linda Gibboney, Leslie Paxton, John King III, Bo Byers, David O'Malley, Robert Telford, Michael Colley.
Gênero: Horror.
País: Estados Unidos.

É normal que alguns filmes acabem trocando de título durante sua produção, o que não é normal é quando tal mudança acontece frenética e desenfreadamente. Aqui, resolveram simplesmente mudar o título nada mais nada menos do que quatro vezes! O roteiro foi originalmente intitulado "Five Faces", mas acabou mudando para "Five Faces of Terror" durante a produção. Então o filme foi lançado e desta vez foi o distribuidor que resolveu que o nome não estava muito bom, mudando-o para “Alien Zone”, título pelo qual, aliás, a obra é mais conhecida. No entanto, este não é seu título definitivo. Posteriormente, e desta vez definitivamente, a obra acabou sendo intitulada de "House of the Dead". O diretor, que não deve ter ficado muito satisfeito com todas essas mudanças, é o estreante Sharron Miller, que guia o filme em quatro curtas histórias cujas premissas envolvem o comportamento humano. 


 
A história se inicia com Talmudge (John Ericson que pouco mais de uma década atrás atuou no divertidíssimo “As 7 Faces do Dr. Lao”, em 64; algumas pessoas talvez se lembrem dele) e sua amante na cama. Após alguns minutos de diversão, Talmudge sai, bem no meio da noite, para voltar ao seu apartamento para dar satisfações a sua esposa preocupada sobre o porquê de sua demora – óbvio que o pilantra ia mentir –, mas o que acontece é que o motorista do táxi o deixa, por algum motivo, em um bairro desconhecido. Perdido e sob uma intensa chuva, ele acaba se refugiando num misterioso local no qual o proprietário além de ali morar, também toca seus negócios. O proprietário (Ivor Francis) não tem seu nome revelado durante a história, mas seu negócio é uma espécie de funerária, ele próprio se auto intitula como um agente funerário, o que por si só já é uma pista do rumo que a história pode tomar.

Talmudge diz ao senhor que precisa ir embora mesmo que de baixo de chuva, mas é convencido do contrário para que possa conhecer um pouquinho seu estabelecimento e seu trabalho. O homem é convidado a entrar numa sala cheia de caixões entre os quais caminham enquanto o agente funerário seleciona alguns daqueles para contar-lhe suas histórias. O filme é uma antologia, algo que soa interessante a princípio principalmente pelo fato de que neste início remete um pouquinho aos filmes da britânica Amicus. Ao todo são quatro caixões, ou seja, quatro mortos e suas respectivas histórias horripilantes.

O primeiro segmento é sobre a senhora Sibiler (Judith Novgrod), uma professora que, por mais irônico que possa parecer, é uma mulher que não gosta de crianças. Ao chegar em casa após um dia muito ruim, nada lhe passa pela cabeça que não relaxar um pouco e esquecer os problemas. Então ela tenta colocar-se o mais confortável possível, ligando música em seu rádio e preparando um banho que posteriormente acaba sendo interrompido por barulhos e um vulto que é possível ser visto adentrando o banheiro. Há um invasor na casa e ele passa a brincar com sua sanidade mental. Claro que a moça toma a decisão mais sensata que uma pessoa pode tomar nessas situações. Ela sai de casa e vai à procura de ajuda? Claro que não! Muito melhor, ela própria sai andando pelos cômodos, assustada, a procura do invasor enquanto se certifica de que todas as janelas e portas estão bem trancadas (!!!). É a melhor decisão possível, trancar-se em casa sabendo que possivelmente há um bandido ali, escondido em algum lugar apenas esperando uma brecha. Alguns instantes após algumas dessas melhores decisões, sem muitas delongas o invasor se mostra, e surpreendentemente (ou não) o invasor na verdade são crianças que não tardam em colocar em prática seus planos. 

 

É uma história que tinha potencial, mas é completamente jogada no lixo porque não há tempo para seu desenvolvimento, além do fato de que a estrutura narrativa ali é inexistente. Não há uma introdução do motivo que a levou a odiar as crianças e muito menos há um desencadeador que leva as coisas a acontecerem daquela maneira. As coisas simplesmente acontecem. Simples assim. A mensagem é clara, afinal o que as crianças intentam fazer com a moça é o que a moça fazia contra elas (guardando as devidas proporções, obviamente) diariamente na escola. No entanto, mesmo com essa mensagem bastante clara, há uma pequena reviravolta ali no meio que não faz o menor sentido dentro daquele contexto já estabelecido, pois coloca em questionamento a natureza de certas coisas que já foram predeterminadas.

Para uma antologia dar certo, um dos principais fatores é tentar cativar o público logo com a primeira história, prendendo-o no sofá para que siga curioso e instigado a chegar ao fim, mas o que acontece aqui infelizmente é o oposto disso. Passar desta primeira parte já é uma dificuldade tremenda.

Já o segundo consegue ser ainda pior e mais vergonhoso. Growski (Burr DeBenning, que os fãs de horror devem se lembrar de seu papel como Dr. Ted Nelson no excelente “O Incrível Homem Que Derreteu”, de 77; ou do seu papel em “A Hora do Pesadelo 5: O Maior Horror de Freddy”, 89) é um fotógrafo com um gosto bastante doentio: ele convida mulheres a irem a sua casa para filmá-las através de uma câmera escondida enquanto as mata. Não há muito o que dizer deste, pois a história só se mantém assim, repetitivamente. Aqui apenas três vitimas são mostradas e são mortas das piores maneiras possíveis – isso não é um elogio –, sendo uma delas enforcada com as próprias meias. No intervalo entre uma vítima e outra é mostrado esse homem sendo preso em meio a várias câmeras e repórteres de diferentes veículos de informação, ou seja, agora quem se encontra em frente as câmeras numa situação ruim é ele, e não mais as garotas. 


 
Ambos os segmentos brigam para decidir qual é o pior. Assim como o primeiro, não há história aqui, apenas um esboço que mais parece ter saído do lixo de um escritor frustrado. As mortes são vergonhosas, as atuações, idem, e sequer há um nível mínimo de divertimento com as já citadas poucas mortes, pois não há uma gotinha de sangue sequer, são todas as mortes extremamente discretas e não são bem mostradas. Assim como seu predecessor, o desenvolvimento aqui também é inexistente. Simplesmente não há. Mostrar pessoas entrando na casa, sendo mortas, e entrando gente nova que também será morta não é uma história. Talvez tenha faltado criatividade ao roteirista, ou talvez seja apenas um enchedor de linguiça para não deixar o filme muito mais curto do que já é. Ou a minha hipótese preferida: os dois ao mesmo tempo. 

Bom, após dois fiascos monumentais, talvez o terceiro segmento eleve um pouco a qualidade da fita, certo? Errado! Ou melhor, talvez - logo você vai entender o que quero dizer com esse "talvez". Este, que é o mais longo de todos, conta a história de dois detetives, os melhores de seus respectivos países, detetive estadunidense Toliver (Charles Aidman) e o britânico da Scotland Yard, Inspetor McDowal (Bernard Fox, que teve um breve momento de fama no filme “Titanic”, de James Cameron). Este segmento teve o que os anteriores não tiveram: tempo para seu desenvolvimento. A qualidade deste então sobe um pouquinho de patamar, o que, tendo os anteriores como parâmetro, também não é um elogio. Apesar de possuir alguns elementos interessantes, ainda se mostra fiel ao baixo padrão estabelecido. O que o torna menos ruim, dentre algumas coisas, é que neste há reviravoltas relativamente interessantes. Uma delas pode pegar de surpresa os mais desavisados. No entanto, não há muito o que dizer da trama por também ser bastante simples, resumindo-se a uma investigação feita pelo detetive americano, que é acompanhado de perto pelo britânico para tentar apurar as origens de uma carta misteriosa que o primeiro recebe enquanto está num restaurante; além de mostrar a rivalidade que se estabelece entre os dois no decorrer do segmento. Longos e enfadonhos diálogos ditam o fluxo aqui, que culmina num final que, apesar das reviravoltas, não consegue se sustentar após períodos sem muita inspiração. 
 


O quarto e último, como já esperado, segue no mesmo baixo nível. Conta a história de um homem que apenas se preocupa com seu trabalho e nada mais, e justamente por isso acaba tratando muito mal todos a sua volta. Certo dia, após recusar a proposta de seu amigo de sair para comer um hambúrguer após o trabalho, no caminho para casa acaba parando, por alguma razão, num prédio aparentemente baldio onde coisas estranhas começam a acontecer; ele cai no poço do elevador e quase é esmagado pelo mesmo, além de uma parede com pregos também quase o perfurar etc. Após tais episódios de natureza um tanto quanto estranha, tendo passado pelo pior dia de sua vida, ao sair do prédio, já no dia seguinte, as coisas não melhoram: todo maltrapilho, acaba sendo tratado pelas pessoas na rua da mesma maneira como ele próprio as tratava no seu dia a dia.  


   
Basta ter apenas meio neurônio funcionando para entender que todas essas histórias contadas pelo anfitrião e agente funerário tem apenas um propósito, que é passar uma lição de moral ao homem que está ali presente. Remete um pouquinho – ao nível de história – à franquia “Jogos Mortais”, cujos personagens morrem de acordo com aquilo que eles praticaram durante sua vida; e também com os filmes da Amicus, cujas antologias sempre apresentavam um anfitrião que guiava seus convidados entre histórias que no fim sempre levava a um propósito bastante claro relacionado a esses convidados. A diferença deste para com os da Amicus é que os desta produtora britânica os filmes são infinitamente superiores, em todos os aspectos.

Talvez um dos motivos pelos quais o filme tenha se tornado esse fiasco seja pelo fato de que seu roteirista, David O'Malley, tenha-o escrito durante suas férias. Talvez tenha dedicado mais do seu tempo livre a se divertir do que a escrever (justo, afinal o filho da mãe estava de férias!). Vai saber. Ou talvez não souberam, todos os envolvidos, lidar com o baixo orçamento, estimado em cerca de 350 mil dólares apenas. Se for este o caso, então fica evidente a falta de talento, tendo em vista que vários diretores mundo afora souberam fazer muito com orçamentos até menores, como é o caso de Ib Melchior em “The Time Travelers” (1964).

Boa parte (para não dizer todos) do elenco também não se sai bem. Maioria dos atores e atrizes não era muito experiente, e isso se deve ao fato de que quase todos foram escolhidos porque o diretor já os conhecia da escola de atuação de Los Angeles, na Califórnia, onde estiveram juntos, e não necessariamente por serem talentosos. É o famoso caso do empregador contratando amigos apenas por serem amigos. Tudo bem que numa bagaceira dessas são dispensados grandes atores e atrizes, o mínimo seria incentivar cada um a dar o seu melhor. O trabalho de um diretor é também dirigir o elenco, e mais uma vez ele se mostrou incapaz.


 
Além das mudanças que o título do filme sofreu durante a produção, partes envolvendo o segundo segmento também sofreram mudanças, sendo uma dessas mudanças a retirada de comentários que satirizavam o ex-presidente Richard Nixon, o único presidente da história dos Estados Unidos a renunciar o cargo, isso no ano de 1974, por causa dos escândalos do Watergate. Escândalo ocorrido no complexo de edifícios que leva o mesmo nome, que em 1972 foram descobertas pessoas, contratadas pelo comitê de releeição do próprio, implantando microfones e roubando documentos do escritório do Partido Democrata. Bom, este não é o assunto apropriado para se alongar aqui, portanto o parágrafo extremamente resumido sobre o ocorrido é importante apenas para contextualizar aqueles que ainda não conheciam esse fato, devido a essa curiosidade envolvendo essa segunda história. Agora, o motivo que levou a retirada desses comentários satíricos continua uma incógnita. Talvez não quisessem misturar política no meio e tornar o negócio ainda pior.

Como fã de podreira, poderia até dizer que, apesar dos pesares, o filme vale uma conferida, mas infelizmente isso não vai acontecer. É filme para ser visto apenas uma vez caso a curiosidade bata e olhe lá. O filme não diverte e não têm sequer uma gota de sangue derramada para satisfazer os gostos dos sedentos por esse líquido denso, viscoso e vermelho. Quer dizer, a roupa de um senhor mancha-se de sangue enquanto é morto em um dos segmentos, mas é tudo tão pífio que não vale a pena mesmo. Caso a curiosidade bata, assista e tire suas próprias conclusões (filme completo e sem legenda abaixo), afinal é disso que se trata, certo? 


Sessão Dupla: Os Goonies (1985) e Conta Comigo (1986)

      Os Goonies (The Goonies, 1985) – Richard Donner Conta Comigo (Stand by Me, 1986) – Rob Reiner Dentre as várias combinações possíveis...