sexta-feira, 17 de julho de 2020

Hellraiser: Inferno na Terra (Hellraiser: Hell on Earth, 1992)


★★★

Diretor: Anthony Hickox
Roteirista: Peter Atkins; Clive Barker (história)
Elenco: Doug Bradley, Kevin Bernhardt, Lawrence Mortorff, Terry Farrell, Ken Carpenter, Sharon Hill, Paula Marshall, Robert C. Treveiler, Philip Hyland, David Young, Brent Bolthouse, Peter Atkins (…)
Gênero: Terror
Ano: 1992
País: Estados Unidos/Reino Unido

I am the way!

“Hellraiser III: Inferno na Terra” (1992) foi um dos inúmeros filmes de terror que marcaram minha infância. Lembro ainda hoje de ir à locadora com meu pai e me deparar com a capa do famigerado “demônio com o rosto cheio de pregos”. Era Pinhead, o líder dos cenobitas, que tão logo veio a se tornar um dos meus personagens preferidos do cinema de terror. Na estante estavam os três primeiros filmes, e o fato de os dois primeiros não estarem disponíveis me obrigou a começar a franquia a partir desta terceira parte. Eu era um moleque, na segunda metade dos anos noventa, obcecado por qualquer história de terror que pudesse encontrar. Se fosse das mais sangrentas e bizarras, melhor. E por isso, à época, este filme me foi um deleite: encontrei boas mortes, um pouco de blasfêmia (sim, fui uma criança muito diferente) e uma final girl linda (que de tudo o que esperava dela, infelizmente só não me entregou os peitinhos, que fiquei durante toda a duração do filme esperando para ver). Era tudo o que uma criança louca pelo gênero poderia querer.

Então comecei a franquia a partir dessa terceira parte, mas foi questão de pouco tempo até finalmente conhecer o primeiro filme e posteriormente o segundo. O primeiro, escrito e dirigido pelo brilhante Clive Barker, é uma obra de arte que traz sofrimento, melancolia, história de um relacionamento abusivo, distúrbios de caráter, sadomasoquismo etc. em sua mais de uma hora e meia de duração. O filme causa repulsa, nojo, carisma por determinados personagens, alguns sentimentos conflitantes a respeito de outros, tudo embasado numa história muito bem desenvolvida, como já era de se esperar de um escritor fora da curva. Esse mais do que excelente primeiro filme, então, definiu um padrão tão alto que ficaria difícil quaisquer obras que viessem a seguir igualá-lo ou superá-lo. O segundo, por exemplo, apesar de muito bom, não se aproxima do que o primeiro construiu, embora haja momentos que assemelhem. O terceiro... Bem, se o segundo não chega muito perto, o terceiro está mais para uma bola que erra o gol e sai para fora do estágio: está muito, muito longe. E embora eu saiba disso, isso não me impede de me divertir, com um sorriso no rosto, ainda nos dias de hoje quando o assisto. O filme tem seus erros, mas também tem, sim, seus méritos.

Aqui, a personagem principal é Joey (interpretada pela belíssima Terry Farrell), uma jornalista que ao presenciar um rapaz todo perfurado por correntes chegar ao hospital para em seguida ser violenta e misteriosamente morto, enxerga nisso uma oportunidade de investigação para tentar alavancar sua carreira decadente. Ela conhece então Terri (Paula Marshall), a garota que chegou ao hospital com o rapaz e que é responsável por dar à jornalista alguma ajuda que a acaba levando ao submundo dos prazeres violentos da carne liderado por Pinhead (interpretado pelo sempre excelente e icônico Doug Bradley). J. P. Monroe (Kevin Bernhardt), por sua vez, entra nesse triângulo como ex-namorado de Terri e responsável por liberar acidentalmente Pinhead de sua prisão.

Como já era de se esperar, o diretor Anthony Hickox conduz a história de forma completamente oposta à atmosfera criada por Barker no seu filme de estreia. Na verdade, ele segue um pouco um gancho narrativo levemente aberto pela segunda continuação. No segundo, ao contrário do primeiro, as coisas acontecem um pouco explicita e freneticamente, por assim dizer (com direito a cenas cujos personagens acabam sendo levados a uma viagem ao “inferno”), com alguns possíveis excessos responsáveis por desagradar a uma parcela (pequena, a título de registro) dos fãs da franquia, mas que ainda assim não compromete o resultado final. O foco, portanto, passa a ser mais voltado aos demônios, mostrando muito mais sobre eles e o submundo no qual vivem. Neste terceiro todo o exagero foi elevado ao quadrado. A opção foi a de criar um filme menos sério (há um diálogo entre Joey e um padre que é hilário), menos atmosférico e com menos suspense, mas mais voltado a cenas gore, personagens exagerados e diálogos com frases de efeito, e com um enfoque em Pinhead, que aparece solitário por quase todo o filme, sendo os cenobitas apresentados somente no terceiro ato. Sobre os diálogos, aliás, o que não falta aqui são frases de efeito (todas elas muito legais, diga-se de passagem). Portanto os excessos foram concebidos junto com o filme, que foi criado para ser justamente dessa forma, ou seja, sem muitas pretensões. E é nisso que reside alguns de seus erros e acertos.

As atuações são exageradas e todas beiram a canastrice pura, o que acaba criando momentos cartunescos conflitantes com momentos sérios, o que demonstra clara indecisão do diretor na condução dos atores. Apesar disso, dá para dizer com certeza que atuações ruins em filmes confessadamente exagerados não são o pior dos problemas. Dentro desse universo do terceiro filme, se visto como uma história individual, dá para relevar sem muito esforço, o problema é que ele faz parte de um universo com regras já preestabelecidas, regras essas que esse terceiro filme (e vários outros da franquia) não segue. E isso pode ser estendido a praticamente todos os defeitos que essa terceira parte possa ter. Por outro lado, o fato de o filme já ter sido concebido para ser dessa forma ajuda a diminuir um pouco o impacto negativo. Tendo isso em mente, aqueles que procuram por um bom filme de terror vão encontrar aqui uma boa fonte de diversão, pois o filme é um banho de sangue com direito a um massacre lindo num clube e também a melhor cena de toda a trama e uma das melhores de toda a franquia, quando Pinhead entra numa igreja católica à procura de Joey. Essa cena se destaca pela ousadia, pois mostra o líder dos cenobitas simulando sua própria crucificação enquanto pronuncia, no final, os dizeres da citação no início deste texto. Além disso também simula uma comunhão retirando um pedaço de sua própria carne para colocar na boca do padre: “Este é meu corpo, este é meu sangue. Felizes os que vêm a minha ceia”. Essa cena causou controvérsia na sociedade conservadora da Carolina do Norte. O diretor foi proibido de filmar numa igreja, por isso teve de criar todo o cenário num set de filmagem. Alguns do próprio elenco chegaram a reclamar da cena também, o que Hickcox conseguiu contornar ao explicar que o que ele estava fazendo não era tão diferente do que outros diretores fizeram nos incontáveis filmes sobre Drácula, da Hammer, com Christopher Lee, por exemplo. 

Com a morte de alguns cenobitas no filme anterior, Pinhead, para conseguir perseguir a protagonista e finalizar seu plano, precisou criar novos servos que dentro de suas limitações são até interessantes: tem o cenobita com a cabeça cravejada de CDs cujos quais ele usa para matar; tem o cinegrafista e amigo da protagonista que em certo ponto também se transforma numa dessas entidades, sendo ele um cenobita com uma câmera no lugar de um dos olhos; e um com alguns aparatos mecânicos atravessados na cabeça; há também uma garota com uma abertura na traqueia com um cigarro (!!!) preso a ela; e por fim outra garota com arame farpado enrolado na cabeça. Todos possuem pouco tempo em cena, o que foi pensado para poder dar mais desenvolvimento e tempo de cena ao vilão principal e líder deles.

Uma coisa que merece ser mencionada é a música tema homônima composta por Lemmy e Ozzy, que, magistralmente executada pelos lendários Motörhead com a inconfundível voz de Lemmy, fizeram-na já nascer clássica, combinando tanto com o clima do filme, e vice-versa, que chega a ser difícil separar um do outro, criando um desses raros momentos de simbiose que merecem ser apreciados. E falando em boa música, foi um dos meus primeiros contatos com o Rock ‘n’ Roll e Heavy Metal. Dali em diante eu já sabia qual rumo, musicalmente falando, eu gostaria de seguir. A trilha, inclusive, também conta com Armored Saint que, além de presentear o filme com algumas boas canções nas cenas que envolvem a boate, também aparecem representando a si mesmos nos shows desse clube. São, portanto, dois méritos que todo o fã de terror que se preze vai provavelmente elogiar: o gore de qualidade e a trilha recheada com o bom e velho Heavy Metal.

Uma curiosidade digna de nota é que a direção do filme foi oferecida a Peter Jackson, que acabou recusando a proposta por pensar que não poderia dirigir um filme de terror sério (por mais irônico que possa parecer). O neozelandês é bastante conhecido entre os fãs de terror por dirigir alguns clássicos do cinema podreira, “Náusea Total (Bad Taste, 1987)” e “Fome Animal (Braindead, 1992)”, que, além dos altos níveis de sangue e nojeira, também carregam uma carga grande de comédia, principalmente de um excelente e extremo humor negro. Ele acabou gostando do produto final, mas disse que faria modificações principalmente com relação a Pinhead. Disse, por exemplo, que gostaria de vê-lo sendo golpeado no rosto, contra uma parede, para que seus pinos fossem todos enterrados na carne e ossos, dizendo que esse tipo de humor faz parte de seu jeito de ser e de fazer cinema de horror. E de fato faz. Jackson voltaria a lançar outro filme de terror quatro anos depois, seu hilariante e ao mesmo tempo tenso “Os Espíritos (The Frighteners, 1996)”.

Então, como saldo final, “Hellraiser III: Inferno na Terra” se mostra uma continuação decente. Tem quase tudo daquilo que se procura num bom filme do gênero, boas mortes, um pouco de blasfêmia, de brinde um pouco de Metal e, como continuação, a ampliação do universo sombrio e sadomasoquista dos cenobitas e seu líder. Por outro lado, erra nas caracterizações cartunescas dos personagens, em alguns exageros e na construção dos novos e quase descartáveis cenobitas, que praticamente não possuem tempo suficiente em cena. O saldo é positivo. Chegou a marcar algumas pessoas de uma geração tanto pelo conteúdo violento quanto pela boa música. De fato não é dos maiores da franquia, mas ainda assim é uma boa e divertida continuação. 



sábado, 11 de julho de 2020

The Shed (2019)



Diretor: Frank Sabatella
Roteirista: Frank Sabatella
Elenco: Jay Jay Warren, Cody Kostro, Sofia Happonen, Frank Whaley, Timothy Bottoms, Siobhan Fallon Hogan, Chris Petrovski, Francisco Burgos, Uly Schlesinger, Mu-Shaka Benson, Drew Moore, Caroline Duncan, Sal Rendino (...).
Gênero: Terror
Ano: 2019
País: Estados Unidos

Após uma sessão extremamente divertida com “Haunt” (2019) na noite anterior, pensei em pesquisar por outros filmes de baixo orçamento que pudessem ser tão divertidos quanto. Filmes descerebrados cujo valor de entretenimento pudessem fazer valer uma hora e meia ou uma hora e quarenta de diversão. Eis que na busca por algo assim me deparo com o que a princípio me pareceu interessante: “The Shed” (2019), segundo filme de Frank Sabatella (o primeiro é o “Blood Night: The Legend of Mary Hatchet”, de 2009) que traz como premissa um vampiro preso num pequeno galpão no quintal da casa onde vivem Stan (Jay Jay Warren) e seu avô abusivo e violento Ellis (Timothy Bottoms).

Stan é um jovem problemático que durante alguns anos de sua vida viveu em instituições comandadas pelo estado. Aparentemente, sem conseguir lidar com a perda precoce de seus pais, o garoto acabou optando por trilhar um caminho longe das amarras da lei, que por consequência o acabou colocando nesses lugares. Lidar com um avô extremamente violento, e posteriormente com o vampiro preso no galpão, é sua única alternativa para não mais voltar a lidar com as autoridades dessas instituições.  A única boa companhia que tem em sua vida miserável é a de seu melhor amigo Dommer (Cody Kostro), um nerd solitário cujo qual Stan gasta boa parte de seu tempo defendendo dos valentões. Já Roxy (Sofia Happonen) é a garota por quem é apaixonado, mas que namora justamente o líder dos valentões.

Sabatella tenta conferir profundidade à história através de metáforas sobre o bullying, mas acaba fracassando, pois nada do que se vê em tela tem seu devido desenvolvimento. O que se sabe sobre qualquer um dos personagens é muito pouco ou quase nada. Sabe-se, por exemplo, que Stan e Roxy eram amigos próximos no passado e que tal amizade se desfez na adolescência, mas nada além disso tem continuidade no desenrolar da trama. Dommer, por sua vez, é um completo enigma. Não há informação alguma sobre ele, sobre seu passado, sobre sua família etc., a não ser aquela que se vê acontecendo em cena, que são os problemas com os valentões apenas. Sua relação com o vampiro, aliás, tem papel fundamental nesse paralelo traçado pelo diretor quanto às pessoas que sofrem nas mãos de outros alunos na escola, mas não causa impacto pois, além da falta de sutilezas, não há progresso sobre o assunto ao longo da história. O vampiro é visto por Dommer como uma porta de saída de uma vida estudantil miserável e sofrida. Ele enlouquece aos poucos ao ponto de querer dar um fim aos seus algozes utilizando o ser sugador de sangue.  Stan, enquanto tenta resolver o problema de ter um vampiro no galpão de sua casa, tenta mediar a situação de modo a não deixar que seu melhor amigo perca a cabeça.

O que podia ter sido um filme interessante e divertido sobre o tema acaba então desperdiçado por um roteiro que parece ter sido remendado com situações e propostas que não se sustentam. Cenas que se alongam demais não deixam as coisas acontecerem naturalmente e o que acontece é pobremente desenvolvido, fazendo com que a curta duração de 98 minutos pareça uma eternidade. As ações dos personagens são questionáveis – o terceiro ato que o diga – e o fato de serem completos estranhos para o público não os ajudam a se tornar interessantes. Aliás, o que eles são é o oposto disso. Com relação ao vampiro, sua força sobre-humana fica clara desde o início ao destroçar um dos personagens que ousa adentrar o galpão e também ao destruir com facilidade parte da porta do mesmo. O que não fica claro, por exemplo, são os motivos pelos quais ele não destrói tudo durante a noite e foge, por exemplo. E advinha? O roteiro não tem uma resposta para isso também, assim como não tem para metade das coisas que acontecem.

Então algumas pessoas podem se perguntar: é preciso tanto requisito assim para que um filme de baixo orçamento renda alguma diversão? Simples, desenvolvimento aprofundado em filme de terror decerebrado pode não ser um dos principais requisitos - e de fato não o é - quando o gore (principalmente, mas não necessariamente, quando vem aliado a boas doses de nudez e sacanagem), por exemplo, é excelente, mas infelizmente também não é o que acontece aqui. Está mais para um filme adolescente sem sal com pretensões de passar uma mensagem importante que acaba presa dentro de suas inúmeras limitações. Para que uma boa mensagem seja passada, é necessário que ela se valha de um bom desenvolvimento de suas premissas, caso contrário se torna inócua e irrelevante. Não funciona. Não chega nem perto de funcionar.

No final, a sensação é a de tempo perdido. Tinha potencial para ser um divertido filme de vampiro com questões importantes que rondam o mundo adolescente, mas acaba desperdiçado em meio a diálogos expositivos de um roteiro preguiçoso que insiste em cenas desnecessárias, dentre as quais, por exemplo, as de sonhos dentro de sonhos que simplesmente não funcionam e só causam vergonha alheia por tamanha ineficiência, subestimando inclusive a inteligência do espectador ao tentar incitar um susto que nunca vem. Acho que tudo isso explica os motivos pelos quais Sabatella demorou dez anos para conseguir filmar este seu segundo filme. Ainda não foi dessa vez, infelizmente.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Haunt (2019)


★★

Diretor: Scott Beck, Bryan Woods
Roteirista: Scott Beck, Bryan Woods
Elenco: Katie Stevens, Will Brittain, Lauryn Alisa McClain, Andrew Caldwell, Shazi Raja, Schuyler Helford, Phillip Johnson Richardson, Chaney Morrow, Justin Marxen, Terri Partyka, Justin Rose, Damian Maffei, Schuyler White, Samuel Hunt (...).
Gênero: Terror
Ano: 2019
País: Estados Unidos

Escrito e dirigido por Scott Beck e Bryan Woods, “Haunt” (2019) é a nova empreitada da dupla de roteiristas do excelente “Um Lugar Silencioso” (2018), que agora volta à direção, após quatro anos (onde estrearam com o não tão bem recebido “Nightlight”), para entregar um slasher bastante sangrento e divertido ambientado numa noite de Halloween.

Trata-se de alguns amigos que, após uma festa a fantasia, saem à procura de diversão extra, encontrando-a numa casa mal assombrada numa estrada no meio do nada. Eles são recebidos por uma pessoa vestindo uma fantasia e máscara de palhaço que impõe algumas regras antes de deixá-los entrar: é necessário preencher um formulário com algumas informações pessoais; e o mais importante, ninguém pode levar seu celular para dentro da casa. Ao adentrar, eles se deparam com cenários que emulam os famosos “escape rooms”, onde eles têm de procurar alternativas para conseguirem passar de nível até chegar à saída. No meio disso, armadilhas capturam algumas pessoas que são usadas no teatro macabro proporcionado pelos mascarados da casa.

Um dos méritos da dupla Beck/Woods é saber conduzir o suspense através dos diversos níveis desse misterioso lugar, e os vilões mascarados, muito bem trabalhados pela dupla, tem papel fundamental nisso. Os cenários aterrorizantes e claustrofóbicos pelos quais o grupo de amigos precisa passar corroboram bastante na criação da tensão. Há maneiras de conseguir achar a saída de certo nível para passar para o seguinte, mas são maneiras incômodas e muitas vezes perigosas que vão desde desafios aparentemente inofensivos até outros evidentemente perigosos. Com os mascarados da casa, aliás, não é diferente, eles conferem um ar ainda mais macabro e misterioso a um ambiente que por si só já é assustador, e a tensão e desconforto só aumentam conforme eles vão progressivamente aparecendo. Eles são violentos quando precisam ser e também muito misteriosos tanto sob a perspectiva do espectador quanto do grupo, que estão no mesmo barco e não fazem ideia de quem são essas pessoas. Um dos pontos altos, aliás, é quando o primeiro deles se revela, mostrando-se completamente diferente do imaginado, dando novo fôlego à história que segue cada vez mais violenta.

Quando as atrocidades acontecem, os fãs de gore não vão se decepcionar. O sangue escorre como deve em filmes do gênero. Não são cenas extremamente gráficas, mas são muito satisfatórias dentro da proposta empregada aqui, e vai desde uma cabeça sendo perfurada até outra sendo estourada. O suspense então vai crescendo principalmente quando um dos fantasiados resolve ajudar o grupo, dizendo que não sabia que tudo aquilo tomaria o rumo violento que tomou – e vocês, espectadores, como os personagens, encontram-se sem saber exatamente o que pensar, pois ainda não há como ter certeza sobre se o que ele diz é realmente verdade; esse artifício na construção da tensão se mostra bastante eficiente, pois, diante de toda a atrocidade, a única coisa que passa pela cabeça é querer vê-los todos saindo bem daquele lugar, então fica difícil tomar uma decisão seja confiando ou não nessa pessoa, e esse impasse ajuda muito na progressão da tensão. O maior problema, no entanto, são os flashbacks e a trama paralela da personagem principal Harper (interpretada por Katie Stevens, que aparece noutro filme do mesmo ano, “Polaroid”, num papel de pouca relevância), que seguram o desenvolvimento da história e falham na tentativa de humanizar a personagem, uma vez que nada disso é minimamente desenvolvido.

Quando as coisas saem completamente do controle no terceiro ato, o filme também perde um pouco de sua força. Algumas transições entre tomadas externas e internas não parecem naturais ao mostrar alguém saindo e entrando na casa, passando uma noção confusa de senso de espaço, e o suspense que antes existia e que era um dos pontos fortes deixa de existir. A tensão também diminui gradativamente conforme atitudes duvidosas são tomadas por parte dos personagens. Agora, a inconsistência do final propriamente dito é a banho de sangue frio, visto que não corresponde ao que foi criado e nem à cronologia da trama. Como que determinada personagem conseguiu fazer o que fez após ser hospitalizada dentro do curto espaço de tempo até um dos vilões chegar à sua casa? São ações que não se encaixam.

“Haunt”, portanto, é um slasher divertido com boas doses de criatividade – com parte dela envolvendo os vilões –, sangue, suspense e tensão que funcionam até o início do terceiro ato e que superam os defeitos e inconsistências apresentadas nas tramas paralelas desnecessárias e o final morno que não faz jus ao que foi desenvolvido. Os méritos são maiores do que os deméritos. Fãs do gênero terão aqui uma hora e meia, aproximadamente, de diversão certa.



sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Iceman (Der Mann aus dem Eis, 2017)




Diretor: Felix Randau.
Roteirista: Felix Randau.
Elenco: Jürgen Vogel, Susanne Wuest, André Hennicke, Sabin Tambrea, Franco Nero, Violetta Schurawlow.
Gênero: Aventura/Drama
País: Alemanha / Itália / Áustria  

“Iceman”, ou “Der Mann aus dem Eis” em seu título original, traz uma premissa simples, porém fascinante. Conta a história da múmia europeia mais bem preservada que se tem conhecimento, acidentalmente encontrada no ano de 1991 nos Alpes entre Itália e Áustria. Tão bem preservada, aliás, que se acreditou de início tratar-se do corpo de algum alpinista morto há poucos invernos atrás.  A polícia de Munique, na Alemanha, chegou a investigar o que seria o assassinato de Ötzi (nome com o qual batizaram a múmia) descobrindo que o homem foi ferido na mão e nas costas por uma flecha, ficando nos Alpes italianos para ser soterrado pela neve junto aos seus pertences. A morte, de acordo com os investigadores, foi devida a hemorragia causada pela flecha que o atingiu no ombro esquerdo, e o que motivou o assassinato foi muito provavelmente uma vingança, uma vez que o corpo foi deixado junto de tudo o que carregava. Estudos posteriores constataram que a múmia data de 5300 anos atrás.

O diretor e também roteirista alemão, Felix Randau, conta a história do nosso herói em uma trama de vingança com fantásticas cenas de batalha em meio a lindos planos da majestosa natureza da região. Kelab (nome dado ao personagem na trama; os motivos que levaram o diretor a não levar para a tela grande o nome original são desconhecidos por mim) sai para caçar no que parece ser um dia normal, porém, ao voltar, percebe que sua tribo foi completamente dizimada por um grupo rival que, além de matar a todos, também rouba seu tesouro, chamado de Tineka. O que se vê a seguir, portanto, é uma história de vingança no qual Kelab vai atrás do grupo com um bebê (único sobrevivente da investida) e uma cabra, que ele utiliza para amamentar o recém-nascido.

O primeiro ato consiste em apresentar os personagens mostrando o papel de Kelab naquela comunidade. Além de ser o provedor – é ele quem sai para caçar –, também atua como uma espécie de xamã, o que pode ser observado no ritual feito para a mulher que acaba morrendo ao dar a luz ao bebê que ele carrega após os ataques. O ataque, aliás, é lindamente bem dirigido, com uma longa cena em plano sequência que entra e sai das casas e rodeia os personagens para mostrar absolutamente toda a investida em detalhes. E a violência mostrada é tão palpável que por pouco o cheiro de sangue não atravessa a tela da televisão. O espectador não é poupado durante o filme todo inclusive. Mesmo que essa violência se mostre pontual, quando ela acontece, acontece de maneira a mostrar com detalhes os ataques. Como o filme acompanha mesmo apenas Kelab, suas habilidades de caça não são mostradas em detalhe num primeiro momento, servindo apenas como ponto de partida para serem desenvolvidas no segundo ato. É aqui que ele realmente mostra do que sabe, tanto ao perseguir seus inimigos quanto nos embates corpo a corpo. A trilha sonora contribui muito nesses momentos, pois muitas das vezes se apresenta como a música tribal muito semelhante ao que era feito na época, e isso ajuda muito quem está assistindo a imergir nesse hostil mundo neolítico.

No terceiro ato ocorre o já conhecido embate que o deixou ferido para morrer na montanha, com o diretor mostrando de forma bastante verossímil o que se acredita que tenha acontecido por meio das evidências coletadas pelos pesquisadores. Sua relação com o tesouro roubado, a propósito, ganha inclusive um desfecho bastante interessante nesta última parte, com o personagem agindo de forma curiosa ao objeto, dando até mesmo um espaço para interpretação. Apesar da simplicidade da trama, tudo o que foi retratado condiz com as vidas desses caçadores, e percebe-se que a luta pela sobrevivência vai muito além do que se acredita ser o simples dessa época ancestral. A relação de quem é bom e de quem é mau, nestas condições, talvez dependa da perspectiva. De fato não está longe da realidade desses povos. Portanto, a ideia de pegar os estudos feitos com a múmia, com as informações que se obtiveram a partir dos estudos que consequentemente proporcionaram saber como talvez tenha sido sua vida até o momento de sua morte, não apenas se mostra excelente, como fascinante! 




quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Gwen (2018)



Diretor: William McGregor.
Roteirista: William McGregor.
Elenco: Eleanor Worthington-Cox, Maxine Peake, Richard Harrington, Mark Lewis Jones, Kobna Holdbrook-Smith, Richard Elfyn, Gwion Glyn, Jodie Innes.
Gênero: Drama/Horror.
País: Reino Unido. 


Primeiro projeto para o cinema do diretor e roteirista inglês William McGregor, “Gwen” é um filme de baixo orçamento (estimado em dois milhões de dólares) que conta a história da personagem homônima e sua família, sua irmã caçula Mari (Jodie Innes) e a matriarca Elen (Maxine Peake), que vivem sozinhas durante a revolução industrial numa casa isolada nas montanhas de Gales, na região rural do país, enquanto o marido e figura paterna não retorna da guerra.  A família vive momentos turbulentos enquanto pragas assolam a região, além da pressão exercida pelo dono de uma pedreira, que está em vias de expansão até aquela região, para que lhe vendam a casa.

O filme já dita o ritmo logo nos primeiros momentos, com o diretor estreante comandando a câmera com movimentos lentos que convidativa e cuidadosamente caminham entre os cenários, sugestivamente mostrando apenas o necessário de modo que contribua para que o espectador colha as informações necessárias para montar o quebra-cabeça, de uma maneira que lá no terceiro ato seja recompensado com o que de fato está acontecendo naquele meio. O suspense crescente se deve muito a isso e é reforçado com o fato de que a trama acontece sob o ponto de vista da jovem. Assim, é interessante notar o cuidado que o diretor e roteirista tem de mostrar apenas o que a garota consegue ver e ouvir dentro daquele meio em que está inserida, como por exemplo no momento em que a mãe conversa com um homem, na saída da igreja, e o espectador apenas consegue ouvir a conversa enquanto a garota ainda está por perto. Conforme ela se afasta e consequentemente não consegue mais ouvi-los, o espectador também não os ouve. Ela dá as costas e lentamente sai de perto enquanto a imagem dos dois conversando na porta da igreja ligeiramente se desfoca e sai do ângulo da câmera. Isso tudo ajuda no desenvolvimento do tom enigmático da história, pois são momentos importantes da trama que poderiam dar informações cruciais sobre o que está acontecendo, mas não dá por causa da acertada escolha narrativa de mostrar os acontecimentos sob a ótica da filha e não da mãe.

As informações dadas pelo roteiro, aliás, são sutilmente discretas e variam desde informações básicas dentro da própria história, como quando alguém é acusado de roubar um remédio, e isso acaba acarretando algumas ações esclarecedoras dentro da trama, à linguagem utilizada, quando, por sua vez, ao mostrar uma imagem distorcida e desfocada através do vidro, ajuda a mostrar o possível desencadeador daqueles eventos, embora ainda não se saiba como e por quê. O maior pecado, no entanto, é um ou outro momento desnecessariamente expositivo que, assim como um jumpscare, que embora efetivo, destoa daquilo que tinha sido construído até ali. Na verdade o terceiro ato quase todo assume um tom mais esclarecedor, deixando de lado a sugestividade para dar lugar às informações mais claras para não deixar dúvidas sobre o que está ocorrendo dentro daquela família. O tom atmosférico criado pelos movimentos lentos de câmera, por outro lado, são corroborados pela trilha sonora lenta e pesada igualmente atmosférica que também ajuda na criação da tensão, passando sempre a sensação de perigo. O fato de a trilha estar sempre presente ajuda a passar a ideia de um perigo iminente, colaborando com o senso de alerta, mostrando-se como um grande acerto.

Por fim, o terceiro ato se encerra de forma extremamente pessimista ao mostrar aonde de fato reside o verdadeiro horror. É um horror palpável do qual não se pode escapar, é implacável e violento, especialmente violento contra aqueles mais fracos que não podem ou conseguem abrir mão daquilo que possuem. E a trajetória da jovem Gwen e sua mãe demonstra bem isso tudo.




Sessão Dupla: Os Goonies (1985) e Conta Comigo (1986)

      Os Goonies (The Goonies, 1985) – Richard Donner Conta Comigo (Stand by Me, 1986) – Rob Reiner Dentre as várias combinações possíveis...