domingo, 16 de janeiro de 2022

Melhores de 2021


Bom, 2021 já foi para o saco, graças aos bons deuses! Um ano que não deixará boas lembranças e muito devido a enorme quantidade de merdas que aconteceram como, por exemplo, os problemas causados direta e indiretamente pela covid-19. Com a pandemia vieram os lockdowns, as políticas de distanciamento social – todas necessárias, diga-se de passagem – etc. Com isso, lugares que promoviam aglomeração tiveram de fechar as portas durante esses períodos, sendo um desses lugares os cinemas. 2020 foi um ano ainda pior nesse sentido. Muitos dos grandes e pequenos estúdios optaram por adiar muitos dos seus lançamentos justamente por causa dos lockdowns. Grandiosos filmes como o novo “Duna”, que foi uma dessas inúmeras produções adiadas para o ano 2021, são exemplos de experiências cinematográficas que de fato merecem ser vistas na tela grande com a melhor qualidade de som e áudio disponível. No entanto, outros estúdios acabaram encontrando outras formas, como os streamings, para lançar seus filmes. Cada um tentando lidar da maneira como pode. Alguns deles acertando, outros, errando. A pergunta que vem a seguir, portanto, é essa: com todos esses problemas, será que tivemos algo digno de nota em meio a esse conturbado 2021? E a resposta é positiva! Sim, apesar dos problemas já ditos que todo mundo já conhece, muita coisa boa conseguiu ser lançada. Como de costume – pra variar! –, não consegui assistir a metade do que gostaria dos lançamentos. Mesmo assim, esta é a minha tentativa de fazer meu top 10 dos meus preferidos. As chances de eu falhar miseravelmente são grandes e muito verdadeiras, justamente pelo fato de que com certeza vou cometer injustiças deixando alguns bons títulos de fora – muitos deles que ainda não tive a oportunidade de ver. As chances são grandes mesmo, mas vai valer o esforço. Antes de começar, só quero deixar claro que os títulos não estão em ordem de preferência, mas sim em ordem dos que primeiro me vieram à mente, seguido da mais simples sinopse que eu poderia criar e um pouquinho do meu comentário. O critério que usei pra selecionar esses filmes, aliás, é simples: meu gosto pessoal. Simples assim! Não quis aqui fazer uma pretensiosa lista dos filmes tecnicamente melhores, mas sim dos que mais me chamaram atenção e me trouxeram, também, diversão. Claro que procurei trazer um pouco do meu conhecimento sobre o assunto, mas não como ponto principal. Enfim, sem mais delongas, vamos pra lista.

 

1) Titane (2021), dirigido por Julia Ducournau.

É um filme estranho, bizarro, violento e, por mais estranho que possa parecer, sensível. A história gira em torno de Alexia (Agathe Rousselle), uma mulher que quando criança sofreu uma grave lesão na cabeça por causa de um acidente de carro e por isso teve de colocar uma placa de titânio para corrigir a fratura, numa cirurgia delicadíssima. Já crescida, e ainda perturbada pelo que lhe aconteceu, trabalha numa espécie de clube de strip-tease, ao passo que, na cidade ao redor, assassinatos cruéis estão sendo cometidos (para não dar spoiler, talvez esse seja o máximo de uma sinopse que poderei dar). Fãs de Cronenberg podem pular de cabeça nessa obra, que mistura a já típica violência do movimento do cinema extremo francês, com metáforas e questionamentos muito legais sobre relacionamentos paternos, mais muitas referências ao cinema do mestre canadense. “Crash: Estranhos Prazeres”, aliás, talvez seja a maior das delas. 


2) Lamb (2021), dirigido por Valdimar Jóhannsson.

Distribuído pela A24, produtora e distribuidora velha conhecida dos fãs de terror, “Lamb” é o filme de estreia do diretor islandês que conta a história de Maria (Noomi Rapace) e Ingvar (Hilmir Snær Guðnason), casal criador de ovelhas que vê suas vidas mudarem após uma de suas criações parir um filhote um pouco diferente. Vivendo sozinhos numa fazendo isolada, os dois acabam desenvolvendo tanta afeição pelo cordeirinho recém-nascido que resolvem trata-lo de maneira quase como se fosse filho deles. É um filme que fala, dentre algumas coisas, sobre o relacionamento entre seres humanos e natureza, e também sobre família. Diferente do anterior, este causa incômodo não pela violência, mas pelas situações criadas. É um filme estranho, como tudo da A24, e possui ritmo muito lento, o que pode desagradar aqueles que não gostam desse tipo de terror mais contemplativo, e tem muito de seu desenvolvimento puxado também para o lado do drama que, aliás, toma a maior parte do filme.


3) Censor (2021), dirigido por Prano Bailey-Bond.

Aqui a pegada é de homenagem; homenagem, mais especificamente falando, aos filmes que foram banidos por sua violência extrema no Reino Unido durante os anos 1980 e que ficaram conhecidos como Video Nasties. Após serem avaliados pelos censores da época, muitos desses filmes tinham suas cenas cortadas para serem lançados, já outros – os que não tinham salvação segundo essas pessoas –, eram banidos. Enid Baines (Niamh Algar) – em uma excelente atuação –, é uma desses censores, e se vê cada vez mais enrolada numa trama bizarra que pode ou não envolver conspiração, após pensar ter visto sua irmã desaparecida em um desses filmes. Aqui o terror é também psicológico e de excelente qualidade, e intercala momentos de pura desorientação com cenas de violência gráfica. É um filme bastante vivo em termos de cores – todas em tons neon – e toda sua construção foi feita para remeter os anos 80. É o longa de estreia da diretora.


4) A Quiet Place II (2020), dirigido por John Krasinski.

Com uma data de lançamento prevista para 2020, este foi um dos filmes que sofreram com a pandemia. Foi sendo adiado por muito tempo porque Krasinski, que também dirigiu o primeiro filme, queria que fosse lançado nos cinemas para uma melhor apreciação do publico. Com isso, conseguiu encontrar essa data de estreia apenas em aproximadamente meados de 2021. É uma continuação direta que segue Evelyn Abbott (Emily Blunt) e seus filhos Regan (Millicent Simmonds) e Marcus (Noah Jupe) e seu bebê recém-nascido. Com ainda mais dificuldades de conseguirem se virar nesse mundo pós-apocalíptico, a trama aqui segue mais intimamente Regan e um personagem novo, Emmett (Cillian Murphy) – um excelente personagem, diga-se de passagem –, que, junto da decisão do diretor de colocar o protagonismo nas mãos da personagem Regan, acaba dando um novo frescor ao filme. A direção segura e dinâmica e um roteiro que soube se reinventar, além das atuações poderosas de quase todo o elenco (Noah Jupe está um pouco exagerado aqui) são algumas das qualidades do longa.


5) Saint Maud (2019), dirigido por Rose Glass.

Rose Glass é outra que tem sua grande estreia na direção de longas-metragens. Aqui a história acompanha Maud (Morfydd Clark), uma enfermeira fanática e fundamentalista religiosa que vê muito de seus princípios entrarem em conflito quando começa a trabalhar como cuidadora de Amanda (Jennifer Ehle), uma mulher que sofre de câncer terminal. Amanda, nada religiosa, leva uma vida completamente diferente da de Maud, que, por sua vez, começa a desenvolver afeições pela enferma e vê seu mundo começar a mudar. Estando confusa com toda a situação e também consigo mesma, a enfermeira começa a presenciar coisas estranhas e até mesmo a agir de forma bastante diferente do usual por causa disso. O filme – um terror psicológico dos bons – é de 2019, mas rodou muitos festivais até ser lançado no circuito mundial em 2021. Morfydd Clark é destaque aqui e está excelente, entregando o que é sua melhor atuação na carreira. Já a diretora Rose Glass é uma dentre outras para se ficar de olho.


6) My Heart Can't Beat Unless You Tell It To (2020), dirigido por Jonathan Cuartas.

Outra estreia em grande estilo, aqui a trama segue de forma introspectiva uma família de três irmãos, Dwight (Patrick Fugit) e Jessie (Ingrid Sophie Schram) – que são os irmãos mais velhos – e Thomas (Owen Campbell) que, por causa de uma doença, não pode sair de casa e por isso precisa de cuidados 24 horas por dia. Assim, os dois primeiros irmãos se mantêm bastante ocupados durante o dia e a noite para manter a saúde do caçula em bom estado. Acredito que quanto menos souber sobre a história, melhor será a experiência. O filme busca subverter alguns clichês de um subgênero do terror bem específico e acerta em praticamente tudo. Vale ressaltar que o filme foi filmado em 4:3, o que ajuda muito a construir a sensação de desconforto gerada pela claustrofobia que o filme traz.

 

7) The Night House (2020), dirigido por David Bruckner.

Bruckner é um diretor que já possui certa experiência, contando no currículo, com este filme, três longas. Seu último trabalho foi a obra bem conceituada “O Ritual” (2017). Nesse seu último projeto ele traz Rebecca Hall para interpretar Beth, uma professora que está passando por um processo de luto após seu marido se matar em sua própria casa. Com sua cabeça passando por um turbilhão de emoções, Beth, uma mulher determinada e forte, vê suas emoções piorarem após descobrir alguns segredos envolvendo a vida de seu marido. Claire (Sarah Goldberg), sua melhor amiga, é quem tenta ajuda-la nesse período. Uma das grandes obras do ano, “The Night House” perde um pouquinho de força no finalzinho, quando o filme parece entrar em conflito com alguma coisa que ele próprio havia definido nos primeiro e segundo atos. No entanto não é nada que prejudique sua totalidade. Grande filme!


8) Vicious Fun (2020), dirigido por Cody Calahan.

Um dos filmes mais divertidos do ano, “Vicious Fun” conta a história de Joel (Evan Marsh), um jovem nerd, ingênuo, desajeitado e em péssima situação financeira e amorosa, que escreve sobre filmes de terror para uma revista independente bem pobrezinha. Após seguir uma mulher desconhecida até um bar, com a intenção de talvez conseguir se dar bem com ela e enfim mudar sua situação com as mulheres, acaba entrando numa das piores situações ao se ver preso numa reunião de autoajuda que acontece dentro do próprio bar após o encerramento do expediente. Você deve estar se perguntando, “como uma pessoa se dá tão mal assim numa reunião de autoajuda?". A resposta é que essa não é uma reunião comum de um grupo comum, é uma reunião de autoajuda para assassinos em série (!!!). A partir daí se desenrola algumas das situações mais engraçadas e sangrentas que se pode imaginar. O filme entrega uma mistura de comédia e terror e, vale dizer, é outra homenagem aos anos 80 da lista, tanto em termos de fotografia quanto de violência que, diga-se de passagem, é feita toda, ou quase toda, com efeitos práticos, e também de música, que remete às trilhas dos anos 80. Ou seja, é o pacote completo. Infelizmente a história perde um pouco de força no decorrer do filme, mas não é nada que chega a comprometer.


9) Coming Home in the Dark (2021), dirigido por James Ashcroft.

Mais uma estreia, dessa vez vinda da Nova Zelândia. Hoaggie (Erik Thomson), sua esposa Jill (Miriama McDowell) e seus filhos, Maika (Billy Paratene) e Jordan (Frankie Paratene), estão em um piquenique na natureza, num lugar remoto, quando dois estranhos aparecem e os fazem reféns. A violência é intensa e acontece desde o princípio e de muitas formas, física e psicológica, de modo incômodo e inquietante, principalmente pelo fato de que ninguém, nem espectador e nem personagens, sabem quais as reais motivações dos vilões. Por que isso está acontecendo? Será que é violência apenas por violência? O acaso tem papel forte nisso tudo, mas muitas coisas serão reveladas ao longo dessa jornada de terror, sendo muitas dessas revelações absurdas – no bom sentido. Com isso tudo ainda dá tempo de levantar questões sobre abuso e maus-tratos infantis. Talvez o filme mais macabro - um dos mais, com certeza - e indigesto da lista.


10) The Wolf of Snow Hollow (2020), dirigido por Jim Cumming.

Jim Cummings aqui entrega o terceiro filme de sua filmografia, uma mistura muito bem feita de comédia e terror. John Marshall, interpretado pelo próprio Cummings, é um policial e filho do Sheriff (Robert Forster), que tem nas mãos alguns dos casos mais cruéis de assassinatos que a pacata e turística cidade de Snow Hollow já presenciou. Por causa da natureza dos crimes, muitos na cidade, inclusive dentro da própria polícia, com exceção de John, acreditam que as mortes foram causadas por um lobisomem. Isso, por sua vez, acaba causando atrito entre o protagonista e muitos de seus parceiros. A trama divertidíssima, vale dizer, ainda encontra momentos para falar sobre alcoolismo e paternidade, por exemplo. John, que tem uma filha e é divorciado, não tem um bom relacionamento com a mesma. Para piorar, ainda sofre com ataques de raiva, o que acaba desenvolvendo situações complicadas tanto em sua vida pessoal como no trabalho, com tudo isso sendo desenvolvimento em meio ao caos que se tornou a vida do personagem após começarem os violentos crimes.

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Para encerrar, fica evidente e óbvio o fato de que, ano após ano, o gênero se mostra cada vez mais vivo. A quantidade de estreantes no gênero, fãs entregando filmes para fãs, é bem grande e muito bom de se constatar. Assim, acabou que 2021, apesar de todos os problemas, ajudou a abrir as portas para essas pessoas mostrarem seu potencial. Fica agora a esperança de um 2022 ainda melhor - em todos os sentidos -, e a expectativa de que esses diretores entreguem filmes tão bons quanto num futuro próximo. Veremos o que este novo ano tem para nos entregar. 

 

 

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Exodus - Persona Non Grata (2021)

 

Já faz algumas semanas, algo próximo de um mês, que eu tenho ouvido bastante os álbuns clássicos da banda, desde o início com a obra-prima que é o debute, até o excelente, e um dos meus preferidos, “Impact is Imminent” (1990). Digo isso não para tentar embasar minha opinião no fato de que escuto muito a banda. Ouvir muito ou pouco uma banda não é, necessariamente, critério para dizer a qualidade de seus discos. Mas preferi, no entanto, começar desse jeito pelo seguinte, Steve “Zetro” Souza disse, muito recentemente numa entrevista, que o novo disco, “Persona Non Grata” (2021), é o melhor disco deles já feito até então. É uma afirmação um tanto quanto... Polêmica, talvez? Se parar para olhar principalmente para esses álbuns de início de carreira – e tantos outros que vieram depois –, fica difícil de acreditar em tal afirmação. Então, foi a partir daí que resolvi pausar minhas novas incursões pelos discos clássicos para, enfim, ouvir o tão bem falado lançamento.

O álbum abre com a faixa homônima e já nos mostra que eles não estão aqui pra brincadeira. A faixa é um soco no ouvido do começo ao fim, mantendo um ritmo agressivo de fazer qualquer um ficar de boca aberta! “Persona Non Grata” significa alguém que não é bem-vindo em um determinado local, e combina muito bem com a proposta do álbum, que é expor e criticar as sujeiras da humanidade, desde a hipocrisia dos políticos até a hipocrisia dos religiosos e das religiões etc. Então chega a segunda faixa, “R.E.M.F.”, igualmente agressiva e com riffs que lembram os usados em álbuns dos anos 80, como algumas músicas do “Pleasures of the Flesh” e até mesmo algumas do “Impact is Imminent”. Com uma letra que questiona, durante as guerras,  as decisões daqueles - incluindo decisões políticas -, que não estão na linha de frente (“But if gunfire were near, would they volunteer?”), muito pelo contrário, estão seguros bem longe dali, em seus escritórios. Esta segunda faixa nos mostra o quão afiados eles ainda estão ao compor suas letras, com seus riffs e seus solos, todos destruidores! “Slipping into Madness” fala sobre o uso abusivo de drogas, do seu grande comércio e de muitos jovens que acabam tirando a própria vida quando as drogas não mais camuflam suas depressões (“The opiated generation, Now a poster child for suicide, The blind consumption, Can be one's demise, As depressions in a catatonic state, Now in a coma, And breathing through a tube”). Em “Elitist” a crítica é, como o próprio nome sugere, sobre os egocêntricos, egoístas e narcisistas que manipulam e usam as pessoas para seus próprios ganhos (“Now I've used every friend I've ever had, And it doesn't look like I'm stopping there!”). “Prescribing Horror”, a um ritmo mais lento e cadenciado, embora ainda pesado, fala sobre a droga Talidomida, que era prescrita às grávidas no final da década de 50 para evitar enjoos e outros sintomas. O que parecia ser um remédio “milagroso” pelo seu excelente efeito em tais sintomas (ele combatia inclusive vários tipos de dores crônicas em vários tipos de pacientes), mostrou-se desastroso quando os bebês começaram a nascer com má formação nos membros. “The Beatings Will Continue (Until Morale Improves)”, junto da segunda faixa, traz outro dos meus riffs preferidos do álbum, riffs destruidores como um guerreiro viking cavalgando ao encontro de seu inimigo, prestes a arrancar sua cabeça com seu machado.

A segunda parte do disco abre com “The Years of Death and Dying” e “Clickbait”. A primeira, é interessante notar, traz referências muito legais em sua letra, referências que vão desde Bowie, passando por Queen e Rush, chegando em Slayer e mais. É bom ficar atento a esses detalhes que deixam o álbum ainda melhor. E esta última, por sua vez, vale dar um destaque, pois fala de um assunto muito importante nos dias de hoje, que são as fake News e jornais cujas manchetes estão cheias de mentiras convenientes para atrair o grande público não pensante (“False headlines full of lies, To keep us entertained”), sem compromisso nenhum com a verdade. É uma faixa que reforça o engajamento da banda com tais questões políticas, mesmo que cada um ali tenha suas próprias convicções. Aliás, interessante notar que, numa entrevista recente, o líder e fundador da banda, Gary Holt, disse que os membros têm opiniões políticas diferentes e que isso não os impede de serem amigos. As letras do álbum mostram que dá para chegar num lugar comum. Mas para além desse lugar comum, essa informação dada pelo líder da banda mostra que dá, sim, para as pessoas serem amigas e ainda assim terem posições políticas diferentes. Uma coisa não pode e não deve anular a outra. A nona faixa “Cosa del Pantano” é uma introdução para a faixa seguir, “Lunatic-Liar-Lord”, que traz alguns momentos um pouco mais compassados misturados a agressividade e solos inspiradíssimos. É uma crítica mordaz às religiões e os conflitos causados por elas. “The Fires of Division” e “Antiseed”, penúltima e última faixas, reforçam que todos na banda estão em grande fase, pois encerram o álbum de forma extremamente coesa, com esta última música entregando uma mistura de momentos um pouco mais lentos e um pouco melódicos com a velocidade e agressividade já determinados até aqui.

Acredito que “Persona Non Grata” não se mostra o melhor da banda, mas um dos melhores com certeza. Talvez o melhor em vinte anos. Os caras continuam ótimos, e dessas grandes bandas do gênero, é uma das que ainda está muito enraizada no Underground. Não há espaço, neste disco, para modernidades e nem para artifícios de massa pra atrair um público maior dentro do Metal. Aqui o disco é o que é. É um som pesado, cru e direto como deve ser. É um som que vai deixar feliz tanto os fãs do gênero como um todo, quanto aqueles (principalmente, talvez) que amam o Thrash dos anos 80.

  

Nota:


País: Estados Unidos.

Locação: San Francisco (Bay Area), California

Tipo: Álbum. 

Lançamento: 19 de novembro, 2021.

Gravadora: Nuclear Blast.

Gênero: Thrash Metal.

 

Banda:

·        Tom Hunting

·         Gary Holt

·         Steve "Zetro" Souza

·         Jack Gibson

·         Lee Altus

 

1.

Persona Non Grata

07:30

 

2.

R.E.M.F.

04:22

 

3.

Slipping into Madness

05:33

 

4.

Elitist

03:58

 

5.

Prescribing Horror

05:09

 

6.

The Beatings Will Continue (Until Morale Improves)

03:01

 

7.

The Years of Death and Dying

05:22

 

8.

Clickbait

04:31

 

9.

Cosa del Pantano

01:13

 

10.

Lunatic-Liar-Lord

07:59

 

11.

The Fires of Division

05:23

 

12.

Antiseed

06:17

 

 

01:00:18


 


 



quarta-feira, 24 de março de 2021

Contos da Meia-Noite (Campfire Tales, 1997)

 


★★★

Diretor: Matt Cooper, Martin Kunert e David Semel
Roteirista: Martin Kunert, Eric Manes e Matt Cooper
Elenco: James Marsden, Amy Smart, Frederick Lawrence, Christopher Masterson, Jay R. Ferguson, Christine Taylor, Kim Murphy, Glenn Quinn, Suzanne Goddard-Smythe, Jennifer MacDonald, Ron Livingston, David Cooper, Mike Terner, Matt Cooper, Hawthorne James (...).
Gênero: Terror
Ano: 1997
País: Estados Unidos

Antologias de terror costumam ser, em geral, bastante interessantes e divertidas. Ao longo da história algumas das que ganharam destaque entre os fãs de horror foram os filmes da produtora britânica Amicus – a dita prima pobre da Hammer –, com filmes como “Contos do Além” (“Tales from the Crypt”, 1972) por exemplo, que ajudaram a influenciar e a forjar o subgênero. Além dos filmes, existe também a série “Contos da Cripta” (no original também “Tales from the Crypt”) que, baseada nos quadrinhos dos anos 50, foi ao ar entre os anos 1989 e 1996 e é uma das antologias mais conhecidas do gênero.  Das mais conhecidas do grande público, hoje, estão os recentes “V/H/S” (2012/2013/2014) e “O ABC da Morte” (“The ABCs of Death”, 2012). “Contos da Meia-Noite” (1997), ou “Campfire Tales” no original, não é a melhor e nem a mais criativa das antologias, mas é bem divertida com um interessante prólogo, contos divertidos e até certo ponto assustadores e uma história central que ajuda a manter o público interessado até o final.

Após voltarem de um show, quatro amigos sofrem um acidente de carro. Por causa disso, acabam sendo obrigados a passarem a noite na estrada à espera de ajuda; no caso, eles acabam encontrando as ruínas de uma antiga igreja ali na redondeza onde resolvem esperar a ajuda chegar. Eles constroem uma fogueira e, sentados ao seu redor, contam histórias de terror para passar o tempo. Após o prólogo, “The Hook”, que trata de uma lenda urbana que fala sobre um casal de namorados que são perseguidos por um homem que utiliza de um gancho no lugar de uma das mãos para matar, a primeira história é contada pelo motorista do carro, Cliff (Jay R. Ferguson), com um intuito de assustar as garotas do grupo, Lauren (Christine Taylor) e Alex (Kim Murphy), mais o irmão da primeira, Eric (Christopher Masterson).

Dirigido por Matt Cooper, “The Honeymoon” conta a história de um casal recém-casado, Rick (Ron Livingstone, que os fãs de terror o reconhecerão como o pai da família Perron, no primeiro “invocação do Mal”) e Valerie (Jennifer MacDonald), em lua de mel, que resolvem desviar de seu caminho principal para fazerem uma espécie de turismo macabro; querem conhecer uma mina onde um acidente obrigou alguns mineiros, presos dentro dos túneis, a praticarem canibalismo para sobreviver. No meio do nada e sem gasolina, o casal encontra Cole (Hawthorne James, também conhecido como o motorista do ônibus de “Velocidade Máxima”), que logo trata de afugentá-los ao dizer-lhes que há um animal misterioso na redondeza que costuma sair para caçar nessas épocas de lua cheia. É uma história de lobisomem mediana, porém interessante e um pouco tensa que conta com todos os clichês possíveis.

Apesar das péssimas decisões de ambos os personagens (fruto de um roteiro até certo ponto preguiçoso), mas principalmente por parte do marido, o maior mérito aqui é a criação do suspense por meio dessa criatura misteriosa. Sabe-se apenas que é um lobisomem, pois são eles que saem nas luas cheias para caçar, mas a falta de mais informações aliada ao clima de perigo que surge quando eles ficam presos no meio do nada por falta de gasolina (que maravilha de clichê, hein?!) conferem a diversão desse conto. Os mais atentos (não que isso importe), descobrirão que o final deste conto é uma variação de uma das lendas mostradas no filme do ano seguinte “Lenda Urbana” (Urban Legend, 1998).

O segundo segmento é o “People Can Lick Too”, dirigido por Martin Kunert, e conta a história de Amanda (Alex McKenna), uma garota que, na véspera de seu aniversário, acaba ficando sozinha em casa durante a noite apenas com a companhia de seu cachorro, Odin. Seus pais foram à reunião de pais e mestres da escola, e sua irmã mais velha, Katherine (Devon Odessa), aproveitando a ausência dos dois, também sai para encontrar algumas amigas, dando a Amanda dinheiro para não contar aos pais sobre a escapada. Amanda tem uma amizade virtual secreta com Jessica, com a qual passa bastante tempo conversando pelo computador. O que a garota não sabe, no entanto, é que Jessica é na verdade um pedófilo (interpretado por Jonathan Fuller, que em anos anteriores atuou em filmes do Stuart Gordon, “The Pit and the Pundulum”, de 1991, e “Castle Freak”, de 1995) com quem já vem mantendo contado há tempos.

É o mais fraco dos contos e, assim como o anterior, também não traz nada de novo. O maior problema, contudo, é a condução de uma história que se propõe a ser um suspense, mas que não se sustenta solidamente por falta desses elementos. A garota fica em casa sozinha fazendo suas coisas de criança, como provar os vestidos da irmã e procurar pelo tão sonhado presente de aniversário, e muito pouco é mostrado por parte do pedófilo, que aparece adentrando a casa em alguns momentos e sendo esquecido em outros. A falta de elementos sonoros bem desenvolvidos pode ter contribuído com isso. Também falha em causar a apreensão que deveria ao público muito porque a criança não se monstra assim tão interessante, mas mesmo assim ainda carrega alguns fragmentos de tensão que o salvam do fracasso total.

O terceiro e último segmento é o “The Locket”, dirigido por David Semel, e que conta a história de Scott (Glenn Quinn), um motociclista em uma road trip que, após ter sua moto danificada, encontra abrigo numa casa no meio do nada. Nesta casa ele conhece Heather (interpretada pela linda modela australiana Jacinda Barrett), uma mulher enigmática muito por conta de sua deficiência vocal, ela é muda e só se comunica escrevendo num pequeno quadro negro que carrega consigo. Apesar de enigmática, no entanto, se mostra bastante hospitaleira e simpática, acolhendo o viajante da chuva torrencial que cai do lado de fora.

Este último é uma história de fantasmas bastante interessante e é a melhor das três. O grande mérito deste, além da boa e macabra ambientação, é ter algumas pontas que são unidas conforme mais informações são apresentadas ao público. Uma atitude que poderia ser interpretada como uma decisão ruim de um personagem, por exemplo, tem sua devida explicação quando os eventos começam a ocorrer. Com isso, coisas que parecem sem sentido a uma primeira vista, mostram-se coerentes ao olhar mais atento do espectador lá na frente da trama. Quando os fantasmas começam a aparecer, por sua vez, o clima macabro e mórbido toma conta e é acentuado pelo conjunto das construções da cena, afinal uma casa no meio do nada, sem vizinho algum por perto, a moto quebrada e uma chuva torrencial incessante apenas afunilam as alternativas que são dadas ao casal que, apesar da forma apressada com a qual tomam algumas decisões, acaba despertando sentimento de preocupação no espectador que espera passivo o desenrolar da história enquanto torce pelo melhor.

“The campfire”, dirigido por David Semel , portanto, é a história central ao redor da qual todos esses segmentos são mostrados e é responsável por ajudar a manter o público interessado entre um conto e outro, e seu papel ao incrementar novas situações (perceba que Cliff escuta e vê coisas que são justificadas mais a frente) acaba se mostrando funcional a esse propósito. Seu desfecho, após o término do último conto, aliás, é um bom, porém previsível final que encerra decentemente esta antologia de três contos baseados em lendas urbanas americanas bastante famosas que, apesar de não entregar absolutamente nada de novo, é bastante divertida. 


 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Come to Daddy (2019)

 

 

★★★★

Diretor: Ant Timpson
Roteirista: Toby Harvard (história e roteiro), Ant Timpson (idéia)
Elenco: Elijah Wood, Stephen McHattie, Garfield Wilson, Madeleine Sami, Martin Donovan, Michael Smiley, Simon Chin, Ona Grauer, Ryan Beil, Raresh DiMofte, Alla Rouba, Noam Zylberman, Gord Middleton, Oliver Wilson (...).
Gênero: Terror / Comédia
Ano: 2019
País: Canadá / Irlanda / Nova Zelândia

Elijah Wood tem demonstrado ano após ano que não é apenas o Frodo, da trilogia “Senhor dos Anéis”. O ator tem tomado decisões acertadas de atuar em filmes independentes de baixo orçamento interessantíssimos cuja maior prioridade é a criatividade das histórias aliada a uma direção competente, sem as pompas dos grandes estúdios e dos orçamentos estratosféricos. Após o divertidíssimo “Já Não Me Sinto em Casa Nesse Mundo” (2017), do também excelente e estreante Macon Blair, vem agora o ótimo e pirado “Come to Daddy” (2019), que vai colocar um sorriso no rosto dos fãs de uma boa comédia de terror.

Norval Greenwood (Elijah Wood) recebe uma carta de seu pai (interpretado por um louco Stephen McHattie), com quem não fala desde que desapareceu de sua vida enquanto ainda criança, convidando-o a visitá-lo em sua casa isolada na floresta. Curioso por muitos motivos, e também um pouco nervoso, Norval aceita o convite esperando obter algumas respostas, o que ele não espera, porém, ao chegar lá, é ser recebido com insultos e comportamentos agressivos à sua personalidade tímida e também um tanto quanto esnobe. E aqui termina essa curta sinopse, pois informação demais podem estragar algumas surpresas e reviravoltas de um dos filmes mais malucos e insanamente divertidos do ano.

Em suma, Norval é um jovem que cresceu em Beverly Hills sozinho com sua mãe. De caráter inocente, tímido e esnobe por conta de sua convivência com pessoas famosas e ricas, Norval apresenta uma personalidade frágil tanto física quanto emocionalmente, e muito disso se deve, também, a falta de uma figura paterna em sua infância e adolescência. A falta dessa figura paterna, aliás, mostra-se como uma das boas sacadas do filme, porque quando a maluquice e insanidade acontecem, não há maneiras de prever adequadamente as reações desse personagem, que com os olhos demonstra muito toda a sua inocência e fragilidade frente a situações inimagináveis. Vê-lo lidar com tais situações abusivas e violentas é hilário principalmente pelo fato de tudo aquilo ser completamente novo para ele, que nunca sofreu ou presenciou qualquer tipo de violência durante toda a sua vida. Norval, portanto, até certo ponto é a personificação do espectador (ou pelo menos da grande maioria deles) que, assim como ele, também nunca presenciou qualquer tipo de violência em sua vida, e por causa disso, conjuntamente ao personagem, vai ser levado a pensar em alternativas para conseguir sair dessas situações.  Essa maneira de trazer o público para perto do personagem funciona e é um dos trunfos do diretor.

Falando nisso, o filme não deixa o ritmo cair por causa de uma boa quantidade de reviravoltas adequadamente inseridas em momentos estratégicos. Essas reviravoltas levam o filme a seguir caminhos contrários aos caminhos traçados a princípio, mudando completamente a direção criando situações com as quais Norval vai precisar aprender a lidar rapidamente para sobreviver, dando novos ares à trama que, juntamente com a sua curta duração, não deixa o fôlego acabar. E dentro disso o que chama atenção é o gore muito bem feito. Quando há mortes, elas são incomodamente divertidas tanto pelas situações inusitadas (e acredite, há várias!), quanto pela gravidade dos ferimentos sofridos pelos personagens, ferimentos que são todos mostrados on screen sem dó nem piedade. Algumas dessas mortes chegam a arrepiar de tão gráficas, especial e especificamente uma que ocorre no final, após uma cena divertidíssima num motel.

Todo esse sangue ganha ainda mais sentido quando o nome por trás da obra aparece: Ant Timpson. Esse neozelandês maluco assume aqui seu primeiro filme como diretor, mas trazendo influências de filmes como “Housebound” (2014), “Deathgasm” (2015) e “Turbo Kid” (2015), que foram produzidos por ele e que também carregam uma grande quantidade de humor negro e gore. Ou seja, quando o assunto é humor negro extremamente ácido e sangue jorrando na tela, é com ele mesmo.

Extremamente divertido e recheado de humor e sangue, fãs de filmes de terror oitentistas que buscam nos filmes de hoje essa aura independente e bem feita do baixo orçamento combinado às boas doses de criatividade e gore, encontrarão aqui uma boa pedida. É uma grata surpresa com a qual, bastante curioso, já começo desde já a esperar pelos seus próximos projetos.    



Sessão Dupla: Os Goonies (1985) e Conta Comigo (1986)

      Os Goonies (The Goonies, 1985) – Richard Donner Conta Comigo (Stand by Me, 1986) – Rob Reiner Dentre as várias combinações possíveis...