sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Maratona de Halloween 2024: #4, O Estigma de Satanás (The Blood on Satan's Claw, 1971)

 

🎃🎃🎃🎃

Diretor: Piers Haggard
Roteirista:
Robert Wynne-Simmons, Piers Haggard
Elenco:
Patrick Wymark, Linda Hayden, Barry Andrews, Michele Dotrice, Wendy Padbury, Anthony Ainley, Charlotte Mitchell, Tamara Ustinov, Simon Williams, James Hayter, Howard Goorney, Avice Landone, Robin Davies...
Gênero:
Terror
Ano:
1971
País:
Reino Unido
Duração:
97 minutos

O folk horror, também conhecido como terror folclórico ou terror rural, é um dos subgêneros mais interessantes dentro do terror. São histórias construídas a partir de superstições antigas e crenças populares que envolvem bruxaria, satanismo, ocultismo e assim por diante; e um dos charmes desse tipo de filme é que eles se passam em pequenos vilarejos ou pequenas cidades em tempos antigos (este último não necessariamente) e principalmente em lugares isolados envoltos por natureza. São filmes que buscam retratar o lado obscuro do comportamento humano. O termo, a propósito, foi cunhado por Rod Cooper e usado pela primeira vez justamente à época para definir este filme.

Aqui, a história se passa num pequeno vilarejo no interior da Inglaterra onde as crianças e adolescentes começam a apresentar um comportamento estranho após um agricultor encontrar no terreno de sua fazenda, enterrado, o corpo do que seria um demônio. Apavorado, ele vai atrás do juiz da cidade (interpretado por Patrick Wymark) a procura de ajuda e, a partir daí, tudo desmorona naquele pequeno lugar. As crianças e adolescentes encontram na figura de Angel Blake (interpretada maravilhosamente por Linda Hayden) uma espécie de liderança; uma líder que os guia em direção oposta ao que diz os temos morais à época. É então que as coisas ficam interessantes; o que seria isso, esse mal mostrado no filme? O próprio nome da personagem de Hayden é altamente sugestivo. O filme questiona muitos pontos que envolvem a religião naquele contexto, como a forma buscada para aparar esse mal, por exemplo; também há o padre (que também é professor) que, apesar de resistir as tentações de Angel quando a mesma se apresenta nua em sua frente num determinado momento, age de maneira extremamente questionável com relação às suas missas e aulas. Inclusive, dentre muitas interpretações, o comportamento desses jovens pode estar diretamente atrelado a esse sistema opressor que se encontra representado na figura desse líder religioso. Ou seja, mais do que a história em si, o que se vê nas entrelinhas é ainda mais fascinante.

O que se pode ver on-screen, por outro lado, são cenas que impactam: a própria cena de Angel nua tentando seduzir o padre é uma delas; mas, talvez, a mais impactante e incômoda de todas seja a do estupro seguido de assassinato, onde as crianças e adolescentes acompanham o ato de perto enquanto se deliciam com o que veem. Verdade seja dita, há uma grande exploração da sexualidade aqui, o que faz muito sentido nesse contexto religioso, e, junto disso, fica ainda mais perturbador quando se tem em mente que tudo ocorre por meio de Angel e as outras crianças e adolescentes daquele lugar – que deveriam representar a pureza e castidade.

O filme já era polêmico à época e, hoje em dia, ainda continua assim. É ousado e questionador e, apesar dos problemas no roteiro (que não são muitos e não comprometem), o resultado é um dos melhores filmes do subgênero. Vale também dizer que, junto dele, há dois outros filmes que compõem uma espécie de trilogia do folk horror, que são eles “O Caçador de Bruxas” (1968) e a obra-prima “O Homem de Palha” (1973) – o segundo interpretado magistralmente por Christopher Lee, e o primeiro, por Vincent Prince. 

 


 

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Maratona de Halloween 2024: #3, Do You See What I See? (2024)

 

🎃🎃

Diretor: Awi Suryadi
Roteirista:
Lele Laila e Mizter Popo
Elenco:
Shenina Cinnamon, Diandra Agatha, Yesaya Abraham, Sonia Alyssa, Sarah Felicia, Jessica Shaina, Nyimas Ratu Rafa, Irgi Fahrezi, Bunbun Melly, Aqeela Dhiya...
Gênero:
Terror/Suspense
Ano:
2024
País:
Indonésia
Duração:
109 minutos

À procura de algum filme desconhecido de um país diferente, em busca de alguma pérola perdida, acabei me deparando com esse lançamento, filme da Indonésia baseado num podcast aparentemente muito famoso – que eu desconheço, diga-se de passagem. O continente asiático é conhecido por entregar bons filmes de terror. A Coreia do Sul e o Japão mesmo são um celeiro de grandes filmes do gênero, seja do passado ou lançamentos. A própria Indonésia possui bons filmes de terror e por essa e outra resolvi dar uma chance a esse.

Mawar (Diandra Agatha) é uma jovem que acabou de completar 20 anos de idade. Suas amigas Vey (Shenina Cinnamon) e Kartika (Sonia Alyssa), inseparáveis, fazem um bolo para comemorarem a data, ainda na universidade onde estudam. Naquele mesmo dia, à noite, Mawar vai ao cemitério onde o falecido pai foi enterrado e faz um pedido; como já tem idade o suficiente, pede ao pai que a permita arrumar um namorado. Permissão que é concedida, uma vez que ela de fato arruma um.

Deste dia em diante a garota começa a agir de forma estranha, ela se distancia das amigas e adota um comportamento frio e vazio. Suas amigas percebem que há algo de errado, mas começam a notar mesmo a gravidade do problema quando começam a ouvir e sentir uma presença no dormitório; uma presença que, suspeitam, é a responsável por fazer Mawar, uma garota feliz e vibrante, ser essa pessoa agora amarga e grossa. É então que resolvem procurar ajuda com outra garota da universidade que se diz médium e, a partir daí, as coisas desandam na vida de todos os envolvidos.

Do You See What I See” é um filme de ritmo lento que busca se desenvolver por meio do suspense por trás desse “namorado”. Desde o começo fica claro quem é esse namorado, e de carne o osso é óbvio que não é. O suspense, portanto, não se constrói por meio desse mistério, que nunca fez questão de se fazer presente, mas sim por meio de o que, e não quem, é esse namorado. É uma entidade maligna, claro, mas de qual tipo? Essa é a grande questão abordada aqui. 

Na Indonésia os mortos são enterrados envoltos numa mortalha branca – inclusive já rodou pela internet no passado algumas lendas urbanas a respeito de fantasmas desse tipo que foram vistos na zona rural do país, vídeos que ficaram famosos pelo tom sombrio, aliás – e é justamente isso que confere um tom macabro e sombrio ao filme. Na cena em que ele aparece atrás dos lençóis da dona do dormitório é um bom exemplo de uma boa construção de cena. No entanto, esse suspense não segue com o filme durante toda a sua duração. Isso acontece pela exposição de certos acontecimentos que ficam repetitivos e, por isso, cansativos. O uso excessivo de jump scares também contribui negativamente por conta de, dentre várias coisas, sua ineficiência – já é um recurso batido que raramente funciona de fato nos filmes, mas que, por algum motivo, a maioria dos diretores atuais adoram usar.  Junta-se a isso o fato de que há muito tempo para pouca história – o filme tem 109 minutos – para logo o desinteresse aparecer. Isso sem contar as atuações que também não convencem. Há, contudo, um elemento que, se houvesse um pouco de ousadia no diretor e nos roteiristas e que, se fosse utilizado, conferiria mais morbidez e, consequentemente, se bem aplicado, elevaria a qualidade da obra... Mas é um elemento deveras extremo e nojento e muito provavelmente não foi utilizado porque não existe na história original abordada no podcast. Mesmo assim seria interessante, mesmo que se apenas sugerido.

Infelizmente o resultado final não é bom, há tantos outros filmes daquelas bandas que são infinitamente melhores. Mesmo assim, fica a recomendação para os curiosos, pois nem tudo é ruim; há passagens que são assustadoras, mesmo que levemente. E a aparição da entidade, na verdade a estética dela, é um fator positivo – mas não chega a ser um mérito de fato, uma vez que, como disse, os mortos são enterrados nessa cultura dessa forma, ou seja, existem outras abordagens que usam essa mesma estética e que chega a ser mais eficiente. 




quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Maratona de Halloween 2024: #2, Schlitter (2023)

 


🎃🎃🎃½

Diretor: Pierre Mouchet
Roteirista: Pierre Mouchet e Robin
Elenco: Louka Meliava, Léna Laprès, Gilles David, Côme Levin, Bernard Eylenbosch, Marie-Paule Kumps, Antime Calbrie Ekeloo, Nelson Maerten, Emmanuel Joucla, André Pasquasy, Arnaud Kervyn
Gênero: Terror/Suspense
Ano: 2023
País: França

Hora de partir para uma obscuridade: “Schlitter” (2023) é um filme francês feito para tevê pelo estreante Pierre Mouchet. O jovem diretor que anos antes havia chamado atenção por seu primeiro trabalho, um curta-metragem sobre um homem que vive sozinho no campo, com um segredo macabro.

Lucas (Antime Calbrie Ekeloo) e seu melhor amigo Mathias (Nelson Maerten) são dois garotos de oito anos de idade que vivem vidas bem diferentes. Enquanto o segundo parece ter uma relação saudável com os pais, o primeiro, por outro lado, vive uma situação bem diferente; com um pai autoritário, Lucas precisa lidar com uma infância difícil onde as agressões não são apenas mentais. O pai, considerado o melhor lenhador da região, o trata como um fracote por não conseguir realizar as tarefas do jeito que ele supõe que homens deveriam realizar, e por causa de certa dificuldade apresentada pelo menino, agressões físicas (uma em específico é mostrada, mas já é o bastante para se fazer crer que é algo corriqueiro) e mentais passam a ocorrer. O ápice dessa infância ruim acontece quando, sem querer, seu pai acaba atropelando seu amigo Mathias. Foi uma fatalidade, seu pai não o viu na estrada e assim acabou passando por cima no menino. Uma fatalidade transformada em crime quando, sem pudor algum, joga a bicicleta e o corpo ladeira abaixo. Lucas, dentro do carro, não consegue esboçar reação alguma frente a tamanha atrocidade.

Anos mais tarde, com Lucas agora já adulto (nesta fase da vida interpretado por Louka Meliava), recebe a ligação de que seus pais morreram em um incêndio. É após o funeral que ele, sua namorada Julie (Léna Laprès) e seu amigo Arnaud (Côme Levin) são convidados pelo pai de Mathias (que é interpretado por Gilles David) a parar em sua casa para que Lucas pegue alguns pertences de seus pais que foram salvos do incêndio e, também, para tomar um café. Percebe-se que o pai do menino morto nunca se recuperou do ocorrido, pois, além da perda do filho, ainda perdeu a esposa pouco tempo depois justamente por não ter conseguido lidar com o luto. É nesse momento, então, que as coisas começam a mudar; onde as coisas não são o que parecem e alguns segredos começam a ser revelados.

Com um orçamento modesto, o que o diretor entrega compensa em termos de criatividade. O filme segue com suspense crescente após o carro de Lucas estragar e os três ficarem presos na casa do velho. Como toda a história se passa no campo, no meio do nada, a sensação de impotência se instaura desde os primeiros instantes após as coisas começarem a dar errado. Sem carro, eles não conseguem ir para lugar algum, portanto precisam lidar com os problemas ali mesmo. E os problemas não são nada pequenos.

Contando com boas reviravoltas, o diretor mantém a atenção do público nos momentos-chave, onde a trama poderia descambar para o nada. E a violência, como mencionada no início do texto, se apresenta da melhor forma possível: tudo mostrado on-screen e de forma extremamente gráfica que, aliás, conta com uma excelente maquiagem e efeitos.

Alguns problemas também podem ser observados, como, por exemplo, algumas decisões questionáveis por parte de alguns personagens e algumas ações que parecem não condizer com a condição física de um personagem específico. O desenvolvimento dos três amigos, já adultos, também deixa a desejar; há um problema que Lucas descobre ao ler algumas mensagens no celular da namorada que não surte efeito, uma vez que não há tempo para trabalhar esse, entre outros elementos, e aspectos dos personagens. Nada que tire o brilho da obra, no entanto.

Com isso, “Schlitter” demonstra ser um trabalho decente feito por um estreante que soube muito bem como lidar com o baixo orçamento, incrementando na história, que é o mais importante, elementos que ajudam a manter o interesse do público, de modo que haja suspense e terror na medida certa. Sendo um filme feito para tevê, impressiona. Ainda mais quando se leva em consideração as doses de violência. 

 


 

Sessão Dupla: Os Goonies (1985) e Conta Comigo (1986)

      Os Goonies (The Goonies, 1985) – Richard Donner Conta Comigo (Stand by Me, 1986) – Rob Reiner Dentre as várias combinações possíveis...